Presidentes do Congresso, David Alcolumbre e da Câmara, Hugo Motta durante coletiva a imprensa | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Foi uma semana particularmente intensa em Brasília, com o principal fato político emanando paradoxalmente de Nova York. O discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU, onde defendeu a democracia e alertou sobre os perigos do autoritarismo, aliado às manifestações populares do domingo (21), mudou significativamente a tônica das discussões no Congresso Nacional. A combinação desses eventos fortaleceu a posição governista e fragilizou ainda mais a oposição, já dividida internamente e sem direção clara.

O clima de tensão entre Câmara e Senado atingiu níveis críticos, com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), saindo visivelmente fragilizado na medição de forças com o Senado. A situação se deteriorou após a PEC da blindagem ser aprovada na Câmara e sumariamente derrubada no Senado, deixando os deputados expostos com uma pauta considerada tóxica pela opinião pública.

A liderança de Motta passou a ser questionada internamente, com deputados criticando sua estratégia de buscar alinhamento com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em detrimento do diálogo com os próprios liderados. O erro de cálculo político ficou evidente quando a Câmara iniciou a discussão da PEC em uma aliança entre bolsonarismo e Centrão, apenas para ver o Senado enterrar o texto com alarde.

No mesmo dia da derrubada da PEC, senadores aprovaram projeto alternativo para isenção do Imposto de Renda, acusando explicitamente os deputados de morosidade em propostas que efetivamente beneficiam a população. A tensão promete se intensificar com o chamado PL da Dosimetria, que deve suavizar penas para envolvidos na trama golpista.

A tramitação deste projeto enfrenta obstáculos devido justamente à relação deteriorada entre os presidentes das duas Casas. Lideranças parlamentares avaliam que o texto só avançará com um entendimento entre Motta e Alcolumbre, mas não há previsão para reunião entre ambos. O deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator da matéria, busca consenso entre bancadas, mas enfrenta resistências do PT, que rechaça qualquer benefício ao ex-presidente Bolsonaro, e do PL, que exige anistia ampla e irrestrita.

Desorientação no bolsonarismo

O campo bolsonarista vive momento de profunda desorientação estratégica, evidenciada pela atuação controversa de Eduardo Bolsonaro. O deputado federal tem defendido anistia ampla para envolvidos no 8 de Janeiro, causando incômodo até mesmo dentro da própria direita. Sua articulação durante a crise das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil é vista como fator que contribuiu para fragmentar ainda mais o campo conservador e, paradoxalmente, fortalecer a posição de Lula. Reforçada nesta semana Ipespe que colocou sua aprovação em patamar positivo pela primeira vez em 2025.

Tarcísio de Freitas, virtual concorrente de Lula ao Planalto, exemplifica essa desorientação ao sinalizar em conversas reservadas que não pretende disputar a Presidência em 2026. O governador de São Paulo avalia que a fragmentação da direita e a atuação de Eduardo Bolsonaro prejudicaram as chances eleitorais do campo conservador. Em reunião virtual durante o auge da crise tarifária, Tarcísio alertou Eduardo sobre as consequências negativas da estratégia adotada, prevendo que fortaleceria Lula – cenário que se confirmou.

A decisão de Tarcísio concentra-se na tentativa de reeleição ao governo paulista, evitando depender do apoio da família Bolsonaro para viabilizar candidatura nacional. Sua saída do radar presidencial fortaleceria o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), que vinha sendo tratado como plano B da direita e pode ganhar projeção através da articulação de Gilberto Kassab junto ao empresariado e mercado financeiro.

O governo federal assiste aos conflitos congressuais “de camarote”, considerando que suas pautas prioritárias estão protegidas. A isenção do Imposto de Renda, prometida para votação na quarta-feira (1º), pode até beneficiar Lula na disputa com o Congresso.

O cenário político se reconfigura com uma direita fragmentada, um Congresso em guerra interna e um governo que, inesperadamente, sai fortalecido de uma crise que poderia ter sido devastadora para sua imagem internacional e doméstica.

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