
O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice-presidente da República no governo Jair Bolsonaro (PL), assinou um voto de aplauso no Senado ao filme O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro de 2026. A obra é protagonizada por Wagner Moura e dirigida por Kleber Mendonça Filho, e retrata a perseguição a um pesquisador acadêmico durante o regime militar brasileiro.
O gesto, que veio a público nesta quarta-feira (4), chamou atenção pela contradição política explícita. Mourão integrou um governo marcado por declarações de exaltação ou relativização da ditadura e por ataques sistemáticos ao setor cultural. Ainda assim, levou ao plenário do Senado uma homenagem a um filme que tem como eixo narrativo justamente a repressão estatal, a vigilância e a perseguição intelectual promovidas pelo regime autoritário.
Um voto de aplauso fora do roteiro
O voto foi apresentado como reconhecimento institucional ao cinema brasileiro após a premiação internacional. No entanto, o conteúdo de O Agente Secreto confere à homenagem um peso simbólico incontornável. O filme se insere na tradição do cinema político brasileiro ao abordar os mecanismos de controle e repressão do Estado durante a ditadura, tema recorrente na obra de Kleber Mendonça Filho.
Wagner Moura, protagonista do longa, é também uma das figuras mais conhecidas do meio artístico brasileiro por suas posições públicas críticas ao autoritarismo e à extrema direita. Ao longo dos últimos anos, o ator se manifestou de forma direta contra o bolsonarismo, denunciando retrocessos democráticos e ataques à cultura.
Em conversa com a coluna do jornalista Paulo Cappelli, no Metrópoles, o senador chegou a elogiar o ator brasileiro. “Wagner Moura é um artista versátil e muito bom”, declarou.
Ditadura, memória e contradição política
Durante o governo Bolsonaro, do qual Mourão foi vice entre 2019 e 2022, houve uma ofensiva contínua contra artistas, cineastas e instituições culturais, com cortes de financiamento, deslegitimação simbólica do setor e tentativas de reescrever a memória do período militar. Nesse contexto, o voto de aplauso a um filme que expõe a violência do regime autoritário evidencia uma dissonância difícil de ignorar.
Ainda que Mourão tenha buscado, em diferentes momentos, se apresentar como uma figura mais institucional e moderada dentro do bolsonarismo, o gesto acaba por reconhecer uma obra que confronta diretamente a narrativa histórica defendida por parte expressiva de seus aliados políticos.
No Senado, a homenagem foi lida como um movimento ambíguo. De um lado, reforça o reconhecimento internacional do cinema brasileiro. De outro, coloca no centro do espaço institucional uma obra que revisita criticamente um dos períodos mais sensíveis da história política do país.