Rovena Rosa/Agência Brasil

A Agência Quarter controla uma folha salarial sigilosa na Prefeitura de São Paulo, com salários que chegam a R$ 40 mil mensais, e mantém mais de R$ 178 milhões em contratos vigentes de terceirização de mão de obra com a São Paulo Turismo (SPTuris). A empresa e sua coirmã DKS, ambas controladas pelos irmãos Marcelo e Victor Correia Moraes, receberam ao menos R$ 357 milhões entre 2020 e 2024 para ceder trabalhadores a secretarias municipais, especialmente as de Cultura e Turismo. Os dados de 2025 estão omitidos no portal da Transparência da prefeitura.

O arranjo é alvo de inquérito do Ministério Público do Trabalho (MPT), que investiga o que chama de “quinterização” de mão de obra: as secretarias contratam a SPTuris, que contrata a Quarter ou a DKS, que por sua vez subcontratam microempresas para ceder trabalhadores que, na prática, atuam subordinados a funcionários públicos. Segundo depoimentos colhidos pelo MPT, são os próprios servidores das secretarias que escolhem quem será contratado pelas agências.

O esquema foi revelado Demétrio Vecchioli, nesta terça-feira (24), em sua coluna no jornal Metrópoles.

Opacidade nos contratos

A intermediação da SPTuris, que é uma sociedade de economia mista, reduz significativamente a transparência do processo. Nas prestações de contas dos contratos intermediados pela entidade, a Quarter fornece apenas notas fiscais com o número de acionamentos e os valores cobrados, sem informar quem trabalhou, em qual função ou em qual local. A própria SPTuris afirma não ter acesso aos dados dos trabalhadores que prestaram os serviços.

O modelo contrasta com contratos firmados diretamente com secretarias, nos quais a agência é obrigada a apresentar os holerites de todos os contratados — o que tornou público, por exemplo, que Bárbara Correia Moraes, irmã dos sócios da Quarter, é contratada como coordenadora com salário de R$ 19,2 mil.

A maior parte dos pagamentos envolve o fornecimento de “produtores”, categoria com escopo de trabalho vago que, na prática, abrange desde organizadores de eventos nas ruas de São Paulo até pessoas que cumprem expediente diário nas sedes das secretarias. Só em contratos vigentes para esse tipo de profissional, a SPTuris deve pagar R$ 94 milhões à Quarter. Em 2024, foram R$ 50 milhões apenas nessa rubrica. Cada acionamento custa R$ 1.315 à SPTuris. Em um único dia de pré-Carnaval, houve 247 acionamentos sem qualquer registro público de quem foi contratado ou do que fez.

A falta de transparência abre espaço para práticas que não seriam aceitas no serviço público convencional. A reportagem do Metrópoles teve acesso a imagens que mostram a ex-mulher e a filha de Marcelo Alves Ribeiro – coordenador de eventos da Secretaria de Turismo e responsável, na prática, pela gestão do contrato com a Quarter – trabalhando para a área comandada por ele, contratadas pela própria agência. A Quarter citou a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para não confirmar os vínculos.

Embora Marcelo e Victor Moraes controlem de fato a Quarter e a DKS, nenhum dos dois aparece formalmente como sócio das empresas. A Quarter está registrada em nome de uma mulher que, até recentemente, vivia de aluguel com a família em um cortiço na zona norte de São Paulo — apesar de a empresa ter registrado lucro de R$ 16 milhões apenas em 2024.

O que dizem os investigados

A Quarter afirma que seus contratos seguem a legislação e que os trabalhadores são contratados “com base em critérios técnicos, operacionais e de disponibilidade”, sem lotação permanente em secretarias. A empresa diz que os valores são públicos nos portais de transparência e que a documentação operacional está disponível para fiscalização.

A Prefeitura de São Paulo informou que não utiliza os serviços da DKS desde setembro de 2025 e classificou as contratações como “fornecimento de mão de obra eventual para eventos específicos”. A gestão Ricardo Nunes (MDB) afirmou ter determinado à Controladoria-Geral do Município (CGM) a abertura de processo investigatório para apurar as denúncias. Questionada sobre o número de terceirizados que trabalham diariamente nas secretarias e sobre os valores pagos às agências em 2025 e 2026, a prefeitura não respondeu.

O MPT abriu o inquérito em abril do ano passado após denúncias de que trabalhadores cumpriam expediente diário nas secretarias, com ponto, férias informais e subordinação a servidores públicos, mas recebiam como microempreendedores individuais (MEI), como se prestassem serviços pontuais e externos; o que caracterizaria vínculo empregatício irregular.

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