Haddad
Diogo Zacarias/MF

A confirmação de Fernando Haddad como candidato ao governo de São Paulo foi articulada fora do país. Durante a viagem oficial à China nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva consolidou o movimento que vinha sendo discutido nos bastidores: convencer o ministro da Fazenda a disputar o Palácio dos Bandeirantes em 2026. A informação foi publicada nesta quinta-feira (26) por veículos de imprensa, consolidando um novo panorama na disputa paulista.

Haddad vinha resistindo à ideia. Interlocutores relatam que o ministro avaliava o favoritismo inicial do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e ponderava os riscos de uma nova disputa estadual. Lula, porém, considerou estratégica a presença de um nome competitivo no maior colégio eleitoral do país e insistiu na candidatura. O convencimento ocorreu durante a agenda internacional, longe do ambiente político doméstico, e foi tratado como decisão prioritária.

A definição altera o equilíbrio da eleição paulista antes mesmo do início formal da campanha.

Novo cenário para Tarcísio

Até então, aliados do governador trabalhavam com um cenário de reeleição considerado administrável. Pesquisas recentes indicavam vantagem de Tarcísio, especialmente diante da possibilidade de fragmentação no campo da esquerda. A entrada de Haddad muda esse cálculo.

Ex-prefeito da capital, ex-ministro da Educação e atual ministro da Fazenda, Haddad tem reconhecimento estadual consolidado e histórico eleitoral competitivo em São Paulo. Sua candidatura tende a reduzir a dispersão do campo progressista e concentrar votos em torno de um único nome com densidade política.

Nos bastidores do Palácio dos Bandeirantes, havia avaliação reservada de que Haddad seria forte candidato ao Senado e poderia vencer com facilidade caso optasse por esse caminho. Ao escolher o governo, ele se torna adversário direto de Tarcísio e eleva o grau de competitividade da disputa.

Pressão sobre a montagem da chapa

A decisão também interfere na engenharia da chapa governista. O deputado Guilherme Derrite (PP) aparece como pré-candidato ao Senado. O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pressiona por maior espaço, reivindicando indicação ao Senado e também a vaga de vice.

A vice-governadoria é atualmente ocupada por Felicio Ramuth (PSD), aliado de Gilberto Kassab. Após episódios recentes de distanciamento político, Kassab busca recompor relação com o governador para manter o arranjo. Com Haddad no cenário, a necessidade de consolidar alianças se torna mais urgente.

A disputa interna na direita, que antes poderia ser administrada com mais tempo, passa a exigir definição rápida para evitar ruídos em uma campanha que tende a ganhar dimensão nacional.

Reorganização do PT

Para o PT, a candidatura de Haddad representa reorganização interna e estratégia nacional. São Paulo concentra cerca de um terço do eleitorado brasileiro, e a avaliação no Planalto é que deixar o estado sem um nome competitivo enfraqueceria o campo governista em 2026.

Haddad é o quadro com maior capilaridade eleitoral no estado e sua entrada reduz a possibilidade de disputas internas prolongadas. A decisão também fortalece a narrativa de enfrentamento direto com a direita paulista.

A eventual saída do ministro da Fazenda exigirá rearranjo na equipe econômica, tema sensível em meio à agenda fiscal. Ainda assim, interlocutores do governo indicam que a prioridade política foi considerada determinante.

Disputa com alcance nacional

A eleição em São Paulo tende a ultrapassar o debate estadual. Para Tarcísio, a reeleição representa consolidação como liderança nacional da direita. Para o PT, vencer no estado teria peso simbólico e estratégico, rompendo uma barreira histórica em território tradicionalmente mais resistente ao partido.

Com dois nomes de projeção nacional frente a frente, a campanha paulista tende a ser antecipadamente polarizada. A movimentação articulada durante a viagem à China reorganiza alianças, pressiona negociações internas na direita e transforma a disputa pelo governo de São Paulo em peça central do cenário político de 2026.

O tabuleiro mudou nesta quinta-feira (26).

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