Lagoinha
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A Igreja Batista da Lagoinha passou, em poucos dias, de instituição religiosa citada lateralmente no caso Master a um dos focos mais sensíveis da crise. A unidade Belvedere, em Belo Horizonte, ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, apagou perfis nas redes sociais e encerrou as atividades no domingo (15), movimento que ocorreu logo após a prisão de Zettel na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. A unidade era apresentada como uma das mais luxuosas da rede, com imóvel de cerca de 14 mil metros quadrados e aluguel mensal superior a R$ 420 mil.

O fechamento não ocorreu isoladamente. A igreja deixou de ser encontrada no Instagram, o telefone da unidade não atendia e o site permanecia no ar mesmo após o sumiço digital. O “apagão” nas redes foi o primeiro sinal de crise e indicava uma retirada abrupta da presença pública da unidade em meio ao avanço das investigações.

O episódio também expôs um descompasso entre a operação prática da igreja e sua situação formal. Embora o templo tenha encerrado as atividades e desaparecido das redes, a pessoa jurídica da Lagoinha Belvedere seguia ativa nos registros públicos, ainda com Fabiano Zettel listado como presidente. A abertura do CNPJ da unidade consta em 19 de setembro de 2024, no bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte, sem baixa formal ou alteração de comando registrada até a divulgação do caso. O fechamento, portanto, ocorreu no plano operacional e simbólico, mas não foi acompanhado, ao menos inicialmente, por dissolução institucional.

O nome de Zettel virou peça central nesse enredo porque ele aparece como um dos principais elos entre o universo religioso da Lagoinha e as apurações sobre o Banco Master. A CPMI do INSS aprovou, em 12 de março, a convocação de Fabiano Zettel, descrito como cunhado de Vorcaro e pastor afastado da igreja, depois de ele ter sido apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do Master.

O fechamento e o silêncio

Até aqui, o dado mais concreto sobre a reação institucional da igreja foi o recuo operacional. A unidade Belvedere fechou as portas dias depois do sumiço das redes, sem explicação pública sobre o motivo do encerramento. Nos bastidores, a medida foi interpretada como tentativa de conter o desgaste provocado pela associação entre a igreja e o escândalo financeiro. A unidade tinha como um de seus pastores e investidores Fabiano Zettel, preso novamente em 4 de março, após já ter sido detido anteriormente quando tentava embarcar para a Europa sob suspeita de fuga.

A repercussão não se limitou ao fechamento. O caso também atingiu a imagem pública da rede religiosa, porque a sucessão de fatos aproximou a Lagoinha não apenas do caso Master, mas também das suspeitas em torno de descontos indevidos em benefícios do INSS e da atuação da fintech Clava Forte Bank, vinculada ao ecossistema da igreja. A crise passou a alcançar a cúpula da instituição à medida que investigações e reportagens conectaram, no mesmo campo de repercussão, a unidade Belvedere, a Fundação Oasis, a Clava Forte e nomes próximos à liderança da igreja.

A pressão também chegou à base religiosa. Com o fechamento da unidade, o desaparecimento das redes e a associação da igreja ao caso, fiéis passaram a cobrar explicações públicas sobre o vínculo da instituição com personagens e estruturas mencionadas nas investigações. O desgaste deixou de ser apenas institucional e passou a atingir a confiança interna, ampliando o impacto da crise.

As emendas de Carlos Viana

A segunda frente que ampliou a crise foi política. O senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI do INSS, destinou R$ 3,6 milhões em emendas parlamentares à Fundação Oasis, braço social da Igreja Batista da Lagoinha. Os repasses identificados ocorreram em 2019, 2023 e 2025. Um deles, de R$ 1,5 milhão, foi enviado à Prefeitura de Belo Horizonte com destinação carimbada para a fundação.

A Fundação Oasis foi instituída pela Igreja Batista da Lagoinha em 18 de outubro de 1995 e funciona como braço social da denominação. Foi justamente esse vínculo formal que transformou o repasse em problema político, porque a mesma igreja já estava sob escrutínio da CPMI e associada, em diferentes investigações, ao entorno de Zettel e Vorcaro.

Viana confirmou os repasses e tentou separar a fundação da crise criminal. “Doei das minhas emendas para uma fundação que, todos os anos, gasta R$ 10 milhões em recuperar pessoas moradoras de rua e dependentes químicos. Vou continuar doando”, declarou. O senador sustentou ainda que “todas as verbas” foram manipuladas pelas prefeituras, fiscalizadas pelo Ministério Público e que não haveria contaminação da igreja matriz pelo caso envolvendo Zettel.

Ao mesmo tempo, o senador passou a ser acusado por governistas de blindar a Lagoinha na CPMI. Requerimentos de quebra de sigilo da Clava Forte Bank e de nomes ligados à igreja não avançaram, enquanto cresciam as suspeitas sobre fluxos financeiros envolvendo o entorno de Zettel.

Flávio Dino entra no caso

A terceira frente de pressão veio do Supremo Tribunal Federal. O ministro Flávio Dino determinou que Carlos Viana e o Senado expliquem, em cinco dias úteis, os repasses de R$ 3,6 milhões à Fundação Oasis. A decisão elevou o caso a um novo patamar institucional, ao colocar sob análise do STF a destinação de recursos públicos vinculados à igreja.

O despacho não se limitou a um pedido genérico. Foram detalhados três repasses: R$ 1,5 milhão em 2019, R$ 1,47 milhão em 2023 e R$ 650 mil em 2025. Ao justificar a medida, Dino apontou possíveis irregularidades, como desvio de finalidade, relação de financiamento habitual e afronta aos princípios de impessoalidade e transparência na destinação de emendas parlamentares.

Carlos Viana reagiu afirmando que responderá às solicitações e classificou a medida como retaliação política. A reação explicita o grau de tensão entre a CPMI do INSS e o Supremo Tribunal Federal, em um momento em que as investigações avançam sobre atores conectados ao caso.

Por que a Lagoinha entrou na mira

A entrada formal da Lagoinha no radar da CPMI não ocorreu apenas pelo parentesco entre Zettel e Vorcaro. A igreja passou a ser investigada após o surgimento de indícios de conexões financeiras e institucionais com personagens centrais do caso Master.

A partir desse ponto, a investigação começou a ampliar seu escopo, alcançando a Clava Forte Bank, fluxos financeiros, eventos patrocinados e a circulação de pessoas do entorno de Vorcaro dentro da estrutura da igreja. A presença de Zettel nesse circuito consolidou a Lagoinha como um dos pontos de interseção entre o campo religioso e as apurações financeiras.

Também pesou o histórico de proximidade política do grupo. Fabiano Zettel aparece como um dos principais doadores privados das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas em 2022, o que ajudou a projetar o caso para além da esfera financeira e inseri-lo no debate político nacional.

Outra frente do caso Master

Em paralelo, o caso Master abriu uma nova linha de desgaste institucional que não envolve diretamente a Lagoinha, mas amplia a percepção sobre o alcance das investigações. O Banco Master e a JBS repassaram R$ 18 milhões à Consult Inteligência Tributária, empresa que fez pagamentos ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kássio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal.

Segundo registros financeiros, o Master enviou R$ 6,6 milhões e a JBS, R$ 11,3 milhões, entre agosto de 2024 e julho de 2025. A consultoria afirmou ter pago R$ 281 mil por serviços prestados pelo escritório de Kevin Marques.

Essa frente não estabelece vínculo direto com a Igreja Batista da Lagoinha. O que ela evidencia é a expansão do caso Master para diferentes esferas de poder, envolvendo empresas, Congresso e Judiciário, e ampliando a percepção de que a rede de relações em torno de Vorcaro ultrapassa o sistema financeiro.

O que a sequência dos fatos revela

O fechamento da unidade Belvedere, o apagamento das redes, a manutenção formal da estrutura jurídica, a pressão sobre Carlos Viana e a cobrança de Flávio Dino não são episódios isolados. Juntos, indicam que a crise da Lagoinha evoluiu de um problema reputacional para uma situação com implicações jurídicas, políticas e institucionais.

A igreja ainda não apresentou uma explicação pública consistente para o encerramento da unidade nem para o papel de Fabiano Zettel nesse conjunto de relações. O silêncio institucional, nesse contexto, deixou de funcionar como contenção e passou a ampliar a pressão.

Enquanto a CPMI convoca Zettel, o STF exige esclarecimentos sobre o uso de emendas e novas conexões do caso Master continuam surgindo, a Lagoinha deixa de ser um elemento periférico e passa a ocupar posição central no desenrolar do escândalo.

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