Kast
Esteban Félix/AP

Menos de duas semanas após assumir a Presidência do Chile, em 11 de março deste ano, José Antonio Kast já enfrenta uma das primeiras crises públicas de seu governo. No domingo (22), milhares de pessoas foram às ruas de Santiago e de ao menos outras 15 cidades para protestar contra a decisão do Executivo de suspender 43 decretos ambientais elaborados na gestão do ex-presidente Gabriel Boric. A mobilização, realizada no Dia Mundial da Água, rapidamente se transformou em um dos primeiros grandes testes de rua da nova administração.

A decisão do governo atingiu um conjunto de normas que previam a criação de áreas protegidas, regulação de emissões e mecanismos de preservação de espécies ameaçadas. Entre elas, a rã-de-Darwin e o pinguim-de-Humboldt, símbolos da biodiversidade chilena.

Embora o Ministério do Meio Ambiente sustente que se trata de uma revisão administrativa de rotina, organizações ambientais e especialistas apontam que a medida representa uma interrupção relevante em políticas de conservação construídas nos últimos anos.

Revisão ambiental e mudança de rumo

A suspensão dos decretos ainda em análise pela Controladoria foi apresentada pelo governo como parte de um processo de auditoria interna. A justificativa oficial enfatiza a necessidade de revisar normas pendentes e garantir critérios técnicos mais rigorosos. No entanto, a decisão se insere em uma orientação mais ampla defendida por Kast desde a campanha, marcada pela crítica ao que define como “excesso regulatório” e “ideologização ambiental”.

Na prática, a medida sinaliza uma possível inflexão no modelo ambiental chileno, com maior abertura a projetos econômicos em setores como mineração, energia e infraestrutura.

Essa mudança ocorre em um país que, nos últimos anos, vinha ampliando áreas de proteção e adotando instrumentos mais robustos de regulação ambiental.

Marchas, confronto e detenções contra Kast

A resposta social foi imediata e ganhou escala nacional. Em Santiago, a principal manifestação reuniu milhares de pessoas e terminou em confronto com as forças de segurança. De acordo com autoridades locais, ao menos sete pessoas foram detidas durante os atos, que também registraram uso de gás lacrimogêneo e carros-pipa para dispersar os manifestantes.

Os protestos foram convocados por organizações ambientais, coletivos estudantis e movimentos sociais, que denunciam retrocessos nas políticas de proteção ambiental. Cartazes com a frase “La naturaleza no se Kastiga” se tornaram símbolo da mobilização, associando diretamente as medidas do governo à ameaça à biodiversidade.

A repercussão ultrapassou o Chile e ganhou destaque internacional, com a mobilização sendo apontada como a primeira grande reação pública à agenda ambiental do novo governo.

Primeiros sinais de desgaste político

O episódio ocorre em um momento inicial da gestão Kast, quando decisões rápidas ajudam a definir a percepção pública do governo. A escolha de iniciar o mandato com a revisão de decretos ambientais – uma pauta de alta sensibilidade social – contribuiu para antecipar tensões que, em outros contextos, poderiam emergir mais adiante.

A agenda ambiental, no caso chileno, possui forte capilaridade política e social, especialmente após anos de mobilização em torno de mudanças climáticas, proteção de territórios e conflitos com grandes projetos de exploração. Ao atingir diretamente esse campo, o governo abre uma frente de conflito com setores organizados da sociedade civil logo nas primeiras semanas.

Um início marcado por conflito

A combinação entre suspensão de políticas ambientais, protestos massivos e confronto com a polícia indica que o governo Kast inicia seu mandato sob pressão em uma área estratégica. Mais do que um episódio isolado, as manifestações de domingo apontam para um possível padrão de enfrentamento entre Executivo e movimentos sociais.

O desafio do governo será equilibrar sua proposta de desregulação econômica com a demanda por manutenção de políticas ambientais, em um contexto de alta mobilização social. Até aqui, os primeiros sinais indicam que essa equação tende a produzir desgaste político precoce.

O que se observa nas ruas de Santiago, menos de um mês após a posse, é um indicativo de que a agenda ambiental pode se consolidar como um dos principais campos de disputa no Chile em 2026 e como um dos primeiros focos de resistência ao novo governo.

Veja também