
Milhões de americanos tomaram as ruas no último fim de semana em mais uma rodada dos protestos “No Kings” (Sem Reis), o movimento de oposição mais visível ao governo de Donald Trump desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025. Pela terceira vez em menos de um ano, após edições em junho e outubro, a mobilização ganhou escala nacional: mais de 3.100 eventos foram registrados em todos os 50 estados, com público estimado pelos organizadores em 8 milhões de pessoas.
O centro simbólico dos protestos foi Minnesota, onde centenas de milhares se aglomeraram no gramado do Capitólio estadual e nas ruas de St. Paul. A presença do cantor Bruce Springsteen deu tom à manifestação. O músico apresentou a canção “Streets of Minneapolis”, escrita em homenagem a Renée Good e Alex Pretti, cidadãos americanos mortos por agentes federais de imigração em janeiro deste ano. Em Nova York, a Times Square foi tomada por manifestantes. Em Washington, cartazes com frases como “Abaixe a coroa, palhaço” e “A mudança de regime começa em casa” desfilaram em frente ao Lincoln Memorial.
Os protestos refletem um acúmulo de insatisfações. Os críticos de Trump apontam seu estilo de governar por decretos executivos, o uso do Departamento de Justiça contra opositores, a ofensiva contra programas de diversidade e a crescente percepção de personalismo; com o exemplo mais recente sendo a inserção de sua assinatura nas novas cédulas de dólar. A aprovação do presidente despencou desde que voltou à Casa Branca: atualmente, 56% do eleitorado americano está descontente com sua gestão, segundo pesquisa YouGov para o Financial Times. A queda de popularidade atinge até a base trumpista.
A guerra no Irã emerge como novo combustível para a insatisfação. O conflito, deflagrado por ataques coordenados de EUA e Israel, é reprovado por seis em cada dez americanos, segundo o Pew Research Center. As baixas de militares americanos e a alta nos preços dos combustíveis nas últimas semanas azedaram ainda mais o humor do eleitorado. Isto em um momento delicado, com as eleições de meio de mandato se aproximando em novembro e o risco concreto de os republicanos perderem o controle do Congresso.
Do outro lado, a Casa Branca minimizou as manifestações, descrevendo-as como “financiadas por redes esquerdistas” sem apoio público relevante.
Nesta segunda-feira (30), Trump voltou a escalar a retórica sobre o Irã. Em publicação na rede Truth Social, ameaçou “obliterar completamente” usinas de energia, poços de petróleo e a ilha de Kharg — responsável por 90% das exportações de petróleo iraniano — caso um cessar-fogo não seja acordado “em breve”. Também sinalizou a possibilidade de tomar a ilha militarmente para capturar o petróleo iraniano, o que representaria uma escalada sem precedentes no conflito, já em seu segundo mês.
Teerã rejeitou as propostas americanas. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano classificou as demandas como “fora da realidade, desproporcionais e excessivas”, negando que tenha havido qualquer negociação direta com Washington. As tratativas ocorrem por intermédio do Paquistão e enquanto Trump afirma que “grande progresso foi feito”, o Irã questiona publicamente se o governo americano leva a diplomacia a sério.