O lulismo que a esquerda de Laranjeiras não quer ver – uma resposta a Carlos Bittencourt

Um fenômeno estranho tem rondado o debate na esquerda nos últimos meses. Quanto mais o governo Lula avança na defesa dos trabalhadores, mais críticas ele recebe de parte da própria esquerda. 

No início de março, escrevi uma coluna neste espaço sugerindo que a atual gestão é significativamente diferente dos primeiros governos Lula. Defendia que o conceito de lulismo elaborado por André Singer para descrever um modo de governar baseado na conciliação de classes já não serve para definir o governo atual, que não evita – e até promove – o conflito. Embora o presidente seja o mesmo, a forma de governar é bastante distinta.

Mas há quem se recuse a ver a realidade. Em um texto publicado no site esquerda online, Carlos Bittencourt polemiza com a minha argumentação e alega um caráter apologético no meu texto. Segundo ele, eu estaria vendo uma mudança entre o governo atual de Lula e os anteriores que não existiria. 

Se vejo coisas demais, porém, Bittencourt está vendo de menos. Ao meu suposto otimismo da vontade, se contrapõe não um pessimismo da razão, mas a cegueira ideológica de quem não quer ver o que está à vista de todos.

É, no mínimo, curioso. Lula e seu governo têm enfrentado diariamente, no Congresso, na imprensa e no mercado, todos os setores da burguesia pela diminuição da jornada de trabalho sem redução salarial. Há algumas semanas, o combate liderado pelo Ministro da Secretaria-Geral da Presidência Guilherme Boulos se dá abertamente com empresas nacionais e estrangeiras que exploram o trabalho por aplicativo em torno da distribuição do seu faturamento. 

O governo atual não apenas difere dos anteriores. Ele opera sob outra lógica política, que o conceito já clássico de lulismo não pode descrever.

Mas há quem, como Bittencourt, insista em dizer que Lula continua apoiado num pacto conservador e que defender seu governo é rebaixar o horizonte socialista que a esquerda deveria defender. Pois é. 

A reação mais natural a sua crítica seria de espanto. Não deveria ser preciso um doutorado em Ciências Sociais para reconhecer a diferença entre o lulismo muito bem teorizado por André Singer e o que o governo brasileiro faz atualmente. Mas duas coisas ajudam a explicar o que a razão é incapaz de fazer. 

Em primeiro lugar, Bittencourt faz parte de um grupo que prefere o conforto da consciência crítica ao trabalho árduo de melhorar a correlação de forças da esquerda na sociedade. Dá para entender. Fazer a disputa com a direita e seus valores nos territórios populares e junto aos trabalhadores mais pobres dá trabalho – exige um esforço que nem todos estão dispostos a enfrentar. Na indisposição e na incapacidade de falar com o povo trabalhador de forma a disputar sua visão de mundo, o grupo do qual meu interlocutor faz parte se agarra ao charme da insatisfação e da nobre vontade de mudanças profundas, radicais e que não sejam constrangidas pelo “possibilismo lulista” de que me acusa.

O segundo motivo é menos estético e mais material. Para uma parcela menor desse grupo, falar mal de Lula é uma questão de sobrevivência. Para ela, é preciso que haja um espaço minimamente relevante à esquerda do presidente para que canais no Youtube, perfis de influenciadores, pequenas organizações partidárias e alguns mandatos parlamentares sigam existindo. É até irônico que tantos adoradores de Leon Trotsky, como imagino ser o caso de Bittencourt, tenham tanta afeição por uma pequena burocracia “radical” que de tão inofensiva à ordem não faz nada que ameace a sua existência. 

O (novo) lulismo

A diferença entre o lulismo clássico e o governo atual pode ser resumida em dois pontos, que Bittencourt não se dá ao trabalho de refutar.

Primeiro, as conjunturas global e nacional mudaram – e muito. A ascensão da extrema-direita e a consequente polarização das sociedades na maior parte do mundo tornam inviável um modo de governo avesso aos conflitos sociais e apoiado em consensos políticos e econômicos, como foi o caso do lulismo original. 

Hoje, não há governo que se sustente sem mobilizar algum tipo de confronto. Mesmo em cenários de estabilidade e até crescimento econômico, como é o caso do Brasil, há rejeição importante da parte da população que não se identifica com o bloco no poder.

Como notou a teórica política Chantal Mouffe, a extrema-direita rompeu na última década o ciclo de indiferenciação entre forças historicamente de esquerda e direita que, atreladas ao consenso neoliberal, não projetavam qualquer esperança de mudança na condução do Estado e da economia. Os atores políticos se viram forçados, desde então, a se posicionar acerca de conflitos que tomam a sociedade e a polarização deixou de ser uma opção.

Nesse sentido, o lulismo, bem definido por Singer como um tipo de reformismo fraco que evita a instabilidade da ordem e atende a interesses do trabalho e do capital para realizar o programa do subproletariado, é politicamente inviável nos dias de hoje. Simples assim, Carlos.

Meu segundo argumento é de que Lula demonstra hoje consciência da necessidade política do enfrentamento. Não se trata de uma evolução moral em benefício dos trabalhadores ou então de uma evolução ideológica no sentido do marxismo. Mas de uma opção pragmática, como foram as escolhas que fundaram o lulismo para melhorar a vida dos brasileiros mais pobres a partir de 2003.

O centro da crítica de Bittencourt é de que a disposição de Lula ao conflito seria demasiadamente recente para justificar uma mudança em relação a um fenômeno que dura mais de 20 anos. Aqui, porém, ele tropeça em algumas contradições. Segundo ele, minha tese atribui importância desproporcional ao próprio Lula para descrever algo que seria mais amplo.

Ora, o lulismo é resultado de escolhas que os primeiros governos petistas fizeram. Se o atual governo toma medidas que divergem da lógica que imperou naquele momento, me parece razoável – e mesmo óbvio – apontar diferenças entre dois modos distintos de governar e lidar com os interesses sociais divergentes. Se o mundo mudou e para realizar um programa popular o conflito, ausente anteriormente, se faz necessário, o conceito de Singer não descreve a experiência atual. Embora “Os sentidos do lulismo” seja crucial para entender o Brasil dos últimos vinte anos, é natural que o conceito, voltado para descrever um fenômeno localizado no tempo, tenha que ser atualizado conforme as condições nas quais ele se deu desaparecem. 

Como argumento de autoridade, Bittencourt recorre ao próprio Singer, em artigo em coautoria com Fernando Rugitsky, para refutar a ideia de que há uma mudança em Lula 3 em relação a Lula 1 e 2. Trata-se de um ótimo texto, aliás. Em que os autores reconhecem o maior constrangimento imposto ao atual governo para medidas que beneficiem as classes trabalhadoras diante de um Congresso hostil, de um mercado mais exigente em relação à austeridade fiscal e de uma extrema direita fortalecida e que não existia no início dos anos 2000. Mas meu crítico omite um detalhe relevante. Tal texto é de 2024 e, portanto, foi escrito antes da virada decisiva do atual governo, ocorrida em 2025.

Sejamos justos, Carlos. Até 2025, o governo enfrentou dois desafios prioritários. De um lado, teve de garantir as bases institucionais mínimas da democracia brasileira. Depois de uma gestão que articulou abertamente a ruptura institucional, enfrentou uma tentativa de golpe sete dias depois da posse. Por outro lado, deu conta de recuperar políticas públicas e programas sociais que haviam sido desmontados e atendem especialmente o subproletariado.

É a partir de 2025 que a mudança em relação ao lulismo se torna explícita. Uma virada que, segundo Bittencourt, seria “muito recente” e fruto de circunstâncias particulares. É como se o presidente não pudesse fazer nada diferente do que fez e tem feito. Como se a disposição verificada desde então em Lula para o conflito estivesse fadada a ceder à sua inclinação imanente à conciliação. Como se Lula estivesse prestes, a qualquer momento, a recuperar sua natureza conservadora.

Além da obsessão pela figura de Luiz Inácio, essa visão revela limites importantes. Primeiro, ignora a agência do presidente e o fato de que na política sempre há mais de uma opção. O enfrentamento aos interesses dos mais ricos no debate sobre as alternativas tributárias à mudança do IOF, o confronto com Donald Trump e os Estados Unidos quanto às tarifas e o combate com o Congresso “inimigo do povo” não eram as únicas escolhas possíveis. Lula poderia muito bem ter recuado, composto, conciliado. Mas mesmo diante de correlação de forças tão desfavorável, como descrita por Singer e Rugitsky, ele fez o contrário, atacou. Movimentos que seriam impensáveis no registro teórico do lulismo e cujos sinais já poderiam ser vistos em medidas anteriores que já indicavam alguma disposição a comprar brigas com as elites, como a tributação de fundos exclusivos e offshores no fim de 2023.

Bittencourt não se atenta ainda para o elemento mais importante que se depreende da transformação do lulismo e que diz respeito ao comportamento de Lula como um verdadeiro líder. Me chame de apologético se quiser, Carlos, mas vamos a ele.

A referência principal de André Singer para elaborar o conceito de lulismo é o “18 de brumário de Luís Bonaparte”. No livro, Marx afirma que o campesinato francês, pela sua posição nas relações de produção, não desenvolvia relações orgânicas entre si e tampouco uma relação clara de antagonismo com outras classes. O surgimento de um líder que os representasse e com algum grau de autonomia em relação às outras classes permitiu que os camponeses passassem a identificar a si próprios como um grupo com interesses comuns e digno de representação política. Em outras palavras, na ausência de vínculos entre si e de organizações capazes de organizá-lo e representá-lo, o campesinato precisou de uma representação estabelecida de cima para baixo para fazer avançar seus interesses. Em determinadas situações, a representação precede a formação de um sujeito político. 

A relação que Lula estabelece com o subproletariado, para Singer, obedece a mesma lógica. O realinhamento eleitoral em que consiste o lulismo só foi possível porque o subproletariado, desprovido de organizações ou representações que lhe desse forma enquanto classe, passou a se ver representado por Lula. E aqui compreender as mudanças de Lula 3 em relação a Lula 1 e 2 é decisivo para pensar as possibilidades da esquerda brasileira.

Se durante a primeira experiência do PT no governo federal a aliança entre Lula e os trabalhadores mais pobres se apoiou num reformismo fraco sem enfrentamento aberto com as elites, a identificação com Lula hoje passa pela percepção de que ele ataca os interesses dos super-ricos e de potências estrangeiras para defender os mais pobres. Em um contexto de antagonismo consolidado e de confrontos necessários, o governo adota outro registro de ação e outra narrativa.

É curioso que Bittencourt esvazie a responsabilidade do governo Lula em relação ao avanço de determinadas pautas dizendo que propostas como o fim da escala 6×1 não partiram do presidente. Ele tem razão, a ideia surgiu de um trabalhador precário do Rio de Janeiro que transformou uma indignação veiculada em rede social em uma marca com tração social e depois incorporada por Erika Hilton no Congresso. Cabe perguntar: se o governo não incorporasse a ideia, o que aconteceria com ela? Houve no último período grandes mobilizações, manifestações, greves da classe trabalhadora a favor da medida?

Rick Azevedo, o VAT e Erika Hilton têm feito um esforço absolutamente valioso para fazer avançar o interesse dos trabalhadores. Mas a luta pelo fim da escala 6×1 não é, infelizmente, fruto de um movimento de massas que prejudica a circulação e a reprodução do capital de baixo para cima. É o governo, ao abraçar o projeto e pautá-lo, que tornou a iniciativa viável e popular. 

Ao fazer isso, Lula politiza camadas populares que, em sua maioria, nem tivera notícia da existência do VAT. Em meio a uma correlação de forças hostil na sociedade e no Congresso, o governo enfrenta grandes interesses a favor da medida e deixa claro para os trabalhadores de que lado está. 

Bittencourt não entendeu – ou finge não entender. Lula está promovendo uma disputa com o capital – e, para além do fim da 6×1, podemos falar da isenção do imposto de renda até R$5 mil, da tributação dos dividendos e dos fundos dos super-ricos – sem alienar sua base no subproletariado. Afinal, o confronto se dá paralelamente à valorização real do salário mínimo, do aumento da renda e dos índices de emprego, da recuperação e criação de inúmeros programas sociais. Tudo isso enquanto faz algo que o lulismo não havia feito até então: politizar os trabalhadores a partir do conflito. Mostrando de que lado está, Lula mostra ao povo de que lado esse mesmo povo está em meio aos antagonismos que organizam a sociedade capitalista – com todos os desafios e contradições que isso envolve.

Afinal, um outro lulismo para quem?

Todos queremos um reformismo forte. Com mais direitos para os trabalhadores, maior justiça tributária, um projeto nacional de desenvolvimento com um pacto popular que garanta crescimento econômico, soberania, redistribuição de renda, melhores serviços públicos e universais. Mas é fácil falar. Fazer não exige somente vontade.

Sabemos também que o governo Lula não é um governo revolucionário e nem poderia ser. Inserido no capitalismo e no sistema político brasileiro, ele enfrenta constrangimentos que não permitem avançar o tanto que nós dois, Carlos, gostaríamos. É fácil defender uma política fiscal e monetária mais heterodoxa para quem não tem que enfrentar no dia seguinte os ataques especulativos do capital financeiro e os efeitos políticos, econômicos e sociais da explosão do câmbio e da inflação. Para quem faz política real, para quem ocupa espaços de decisão, o desejo se depara com a realidade. 

Bittencourt, porém, ignora as condições reais em que o programa desejado pode ser construído e defendido. Como alguns outros, prefere falar para convertidos e marcar posição contra um governo que luta pela redução da jornada de trabalho e para aumentar a renda de trabalhadores precarizados por empresas de aplicativos. Trabalhadores, aliás, que se sobrepõem às fronteiras que separam o proletariado e o subproletariado, mas que boa parte da esquerda ultimamente se absteve de disputar. 

Ao estabelecer os termos desses conflitos, o governo articula o que Ernesto Laclau e Chantal Mouffe chamam de uma rede de equivalências necessária para dar coesão a camadas populares cujos interesses parecem distintos e particulares. Por meio da ação de uma liderança e de um programa, que correm simbolicamente de cima para baixo, o governo atual promove a identificação dos trabalhadores entre si, que passam a se ver como parte de um grupo que compartilha interesses e projetos. 

As medidas que Lula tem tomado em defesa dos trabalhadores não apenas promove melhorias materiais em suas vidas como provoca a mobilização de categorias que, no processo, tomam consciência de que seus adversários não são os impostos, os sindicatos, as organizações populares, mas as empresas para quem trabalham. É claro que isso implica riscos diante de setores que temem pagar mais por entregas de comida e corridas de aplicativo, setores que incorporaram a ideologia da concorrência e do individualismo neoliberal e, até, do subproletariado tradicionalmente avesso ao conflito e à instabilidade. Trata-se de um novo arranjo para um novo tempo, em que o consenso é impossível e o conflito e o enfrentamento são necessários. 

Para os radicais de esquerda da internet, porém, não interessa reconhecer as diferenças do atual governo Lula com o lulismo. Pois é do sectarismo que eles tiram seu sustento. São grupos que não chegam aos trabalhadores mais ou menos organizados, seja o precariado, o proletariado, o subproletariado ou qualquer fração da classe. 

Mas enquanto eles falam, as caravanas passam – e são várias. A da direita, essa sim radical, para defender os interesses do capital, das potências estrangeiras, dos esquemas de corrupção dos seus membros e aliados no Congresso. Mas também de uma esquerda que enfrenta os desafios e as contradições do mundo real para, comprometida com a vida do povo, transformar a sociedade em que vivemos.

O “pensamento crítico latino americano” de que fala Carlos tem muito valor e deve ensejar discussões teóricas sobre o capitalismo e as possibilidades de sua transformação. Parte dele, porém, alcança no máximo alguns bares de Laranjeiras. Em São Gonçalo ou no complexo do Alemão, quem chega, para além do tráfico, das milícias e dos Bolsonaro, é o programa de Lula e do governo do Brasil.

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