Galo de Luta e o anti-intelectualismo como ferramenta do ressentimento: quando a crítica perde direção

“O sectário encontra-se tranquilizado e satisfeito consigo mesmo quando, em vez de atuar para convencer os demais, limita-se a condená-los.” — Antonio Gramsci

Nos últimos anos, consolidou-se no Brasil um tipo de comunicador político que antes ocupava as margens do debate público. Não se trata do intelectual orgânico, do militante partidário ou do comentarista tradicional da imprensa. Trata-se de uma figura que faz da rejeição à teoria um traço identitário, que desconfia sistematicamente das mediações — partidos, sindicatos e movimentos sociais — e que se apresenta como alguém disposto a dizer verdades incômodas diretamente ao sentimento popular. À primeira vista, isso pode soar como virtude: um retorno ao concreto, à “vida real”, contra as abstrações vazias dos acadêmicos e dos burocratas de esquerda. Essa aparência, porém, se desfaz quando observamos os efeitos políticos dessa postura.

O problema não está no estilo, mas no método. O anti-intelectualismo não é ausência de ideias. É uma escolha deliberada: rejeita-se a teoria como instrumento de análise, substitui-se a investigação estrutural pela impressão imediata e transforma-se a política em julgamento moral. O que importa deixa de ser a compreensão da realidade e passa a ser a autenticidade da indignação.

Essa postura encontra eco porque se alimenta de frustrações reais: partidos que decepcionam, lideranças acomodadas, organizações enfraquecidas e uma esquerda que muitas vezes parece falar apenas para si mesma. O erro está em transformar esse mal-estar em fim em si mesmo, em vez de convertê-lo em projeto político. A indignação pode mobilizar no curto prazo, mas não sustenta ação coletiva duradoura.

Tomemos como exemplo o caso de Galo de Luta. A força de sua comunicação é evidente: linguagem direta, ruptura com o hermetismo da esquerda acadêmica e capacidade de traduzir revolta social em narrativa acessível. Durante certo tempo, esse tipo de intervenção cumpriu papel importante ao expor limites do campo progressista. Entretanto, manifestações mais recentes especialmente em podcasts e redes sociais sugerem um deslocamento preocupante.

O que antes era crítica localizada ao PSOL ou ao lulismo passa, em muitos momentos, a um nivelamento generalizado: tudo se equivale, esquerda e direita aparecem como faces idênticas da mesma moeda, e toda forma de organização surge como corrupta ou traidora. Quando isso ocorre, a crítica perde precisão. Já não identifica adversários concretos nem distingue contradições reais. Torna-se apenas negação genralizada.

Não se trata de afirmar que alguém “virou de direita”. O problema é outro: certas formas de crítica podem produzir efeitos conservadores mesmo quando formuladas em nome da esquerda. Ao negar diferenças entre projetos políticos, enfraquece-se a capacidade popular de escolher, disputar e transformar a realidade.

Há ainda outro limite decisivo: a submissão ao senso comum. Muitas dessas figuras se apresentam como expressão espontânea do povo e tomam o senso comum como verdade imediata. Mas o senso comum não é neutro nem naturalmente emancipador. Ele é atravessado por valores conservadores, preconceitos históricos, individualismo competitivo e soluções autoritárias sedimentadas ao longo do tempo. Reproduzi-lo sem crítica não aproxima da realidade popular; apenas confirma as ideias dominantes presentes nela.

Por isso, política transformadora não consiste em se adaptar passivamente ao senso comum, mas em disputá-lo. Toda força popular que pretende mudar a sociedade precisa partir da linguagem e da experiência concreta do povo, mas elevando essa experiência a uma compreensão mais ampla de seus interesses. Falar de forma acessível não significa renunciar à elaboração. Traduzir ideias complexas não é o mesmo que capitular diante das percepções imediatas.

É nesse ponto que o anti-intelectualismo encontra o ressentimento. Não como amargura pessoal, mas como forma política. Ressentimento, aqui, é a recusa sistemática de participar de processos imperfeitos. É a escolha de permanecer sempre do lado de fora, condenando tudo sem assumir responsabilidades concretas. (Mesmo que, nesse caso, existam questões de caráter subjetivo, a intenção do texto não é explorar os aspectos pessoais do sujeito em questão.).

Há conforto nessa posição. Ela dispensa o esforço de organizar maiorias, negociar, acumular forças e lidar com limites objetivos. Preserva a imagem de pureza permite que qualquer derrota seja atribuída exclusivamente aos outros. Mas esse conforto tem custo alto: transforma a política em espetáculo de denúncia e esteriliza a possibilidade de mudança real.

Também por isso surgem lideranças que acumulam visibilidade, mas não direção. Uma liderança política efetiva exige base organizada, vínculo com processos coletivos e capacidade estratégica. Sem esses elementos, há influência comunicacional, mas não poder político. Pode-se pautar debates e viralizar opiniões, porém não se constroem instrumentos capazes de alterar a correlação de forças.

Essa posição tende ainda ao desgaste. A crítica incessante cobra respostas que ela mesma evita oferecer. Chega um momento em que se sabe tudo o que está errado, mas nada sobre o que fazer. Como governar, como organizar, quais alianças construir, quais prioridades assumir perguntas centrais permanecem sem resposta.

A crítica à esquerda organizada não apenas é legítima, como necessária. Sem crítica, toda organização tende à burocratização e ao afastamento de sua base social. Mas existe diferença profunda entre criticar para renovar e criticar para destruir o próprio terreno da ação política. Quando o anti-intelectualismo se combina ao ressentimento e à submissão acrítica ao senso comum, o resultado costuma ser muito ruído e pouca construção.

Figuras como Galo de Luta cresceram porque captaram algo verdadeiro: a fadiga diante de uma esquerda institucional frequentemente incapaz de responder aos desafios do tempo. O problema é que a recusa absoluta da mediação e da estratégia bloqueia as próprias possibilidades abertas por essa crítica. Não por falta de talento, carisma ou inteligência, mas pelos limites internos de um discurso que sabe denunciar, porém não sabe construir nem disputar hegemonia.

E esse limite, cedo ou tarde, aparece.

“Toda crítica deve ser acompanhada de uma alternativa prática.”

 Frantz Fanon

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