Palmeiras e Vasco se enfrentaram nesta semana pelo Brasileirão | Foto: Cesar Greco

O Vasco da Gama acertou um empréstimo de R$ 80 milhões com a Crefisa, empresa controlada por Leila Pereira, presidente do Palmeiras, e seu marido, José Roberto Lamachia. O financiamento, crucial para auxiliar o clube em seu processo de recuperação judicial, garante à instituição financeira um poder significativo sobre o futuro societário da Vasco SAF. O que enseja críticas sobre ética corporativa e no esporte.

O valor, captado por meio de um processo de concorrência que envolveu mais de 60 instituições e resultou em cinco propostas firmes, será destinado ao custeio de despesas correntes, como salários, fornecedores estratégicos e obrigações trabalhistas e fiscais. O empréstimo foi negociado no modelo DIP financing (financiamento a devedor em posse) e já estava previsto no planejamento da recuperação judicial do clube para ajustar o fluxo de caixa.

Em nota, o presidente do Vasco, Pedrinho, destacou que a Crefisa apresentou as “melhores condições” e que a negociação foi viabilizada pelo relacionamento com José Lamachia. O dirigente ressaltou a responsabilidade e transparência do processo, que buscou adiar a captação o máximo possível para obter a melhor alternativa no mercado.

Garantias e controle societário

Como garantia do negócio, a Crefisa ficou com 20% das ações da Vasco SAF, um percentual que só será transferido em caso de descumprimento das condições de pagamento do mútuo. A avaliação é que essa garantia é robusta: 20% da SAF seriam avaliados em cerca de R$ 200 milhões, com base na negociação anterior com a 777 Partners, que avaliou o clube em R$ 1 bilhão.

Mais crucial para o futuro político e financeiro do clube é a cláusula que exige a prévia autorização da Crefisa para qualquer mudança no grupo de controle da SAF ou na estrutura societária até junho de 2026. Isso confere à empresa de Leila Pereira e Lamachia o poder de vetar uma eventual revenda da SAF antes desse prazo.

O Vasco, internamente, entende que a necessidade dessa anuência é um movimento comum, pois o credor precisa conhecer quem assumiria a responsabilidade da dívida em caso de venda do controle societário.

A operação financeira já vinha sendo acertada e prevê 12 meses de carência, período em que o Vasco não fará pagamentos, seguidos por dois anos (36 meses no total) para a quitação do valor em amortizações trimestrais, com juros de CDI + 7%.

O futuro da SAF

Apesar do alto custo dos juros e das garantias, a cúpula vascaína não pensa na revenda da SAF neste momento. O foco é arrumar as contas para tornar o clube mais atraente, visando uma futura negociação.

O clube admite que uma revenda ocorrerá futuramente e estima que, se as finanças estiverem equilibradas, a avaliação da SAF pode saltar para a faixa de R$ 1,5 bilhão a R$ 2 bilhões.

O empréstimo, no entanto, ainda depende de aprovações externas. Além da anuência da Crefisa para qualquer negociação futura, a operação precisa ser avalizada pela Administração Judicial (AJ) e pela Justiça, dado que o clube está em recuperação judicial. A AJ reconheceu a urgência do financiamento, mas frisou a necessidade de um plano detalhado para a utilização dos R$ 80 milhões. Além disso, o envolvimento de 20% da SAF como garantia requer também o aval do Conselho Deliberativo do Vasco.

Apesar do conflito de interesses notório – com Leila Pereira sendo presidente do Palmeiras, adversário histórico do Vasco – fontes do clube garantiram que não houve conversas sobre uma futura compra da SAF na negociação de empréstimo. Lamachia conduziu as conversas, sem a participação direta de Leila Pereira.

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