Luiz Silveira/STF

O escândalo envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Banco Master transformou a Corte em protagonista da corrida presidencial de 2026. Pré-candidatos ao Palácio do Planalto de ambos os lados do espectro político passaram a defender reformas no Judiciário, numa tentativa de se posicionar diante do desgaste institucional sem serem atingidos pela crise.

No campo de oposição, o tema ganhou fôlego nesta semana após o ministro Gilmar Mendes pedir a inclusão do ex-governador Romeu Zema (Novo) no inquérito das fake news. A medida reagiu a uma série de vídeos publicados pelo presidenciável mineiro, intitulada “Os intocáveis”, em que Gilmar é retratado como fantoche e Toffoli, como beneficiário de negócios suspeitos. O embate impulsionou Zema nas redes: entre 20 e 23 de abril, ele ganhou seguidores a uma taxa dez vezes superior à média do ano, segundo levantamento da consultoria Bites.

A direita aproveita a brecha. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mantém o impeachment de ministros como bandeira de campanha, embora tenha reduzido os ataques desde que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado a 27 anos de prisão e colocado em prisão domiciliar. Outros nomes da oposição apresentam propostas estruturais: Ronaldo Caiado (PSD) defende mandato de dez anos, idade mínima de 60 anos e lista tríplice para indicações; Augusto Cury (Avante) propõe mandato de oito anos, escolha de ministros por associações de magistrados e fim das transmissões ao vivo das sessões. Renan Santos (Missão) critica decisões monocráticas e os vínculos entre escritórios de advocacia e ministros.

Do lado governista, a estratégia é mais tênue. O PT inicia nesta sexta-feira (24) seu 8º Congresso Nacional, em Brasília, onde deve aprovar a revisão do programa partidário. A minuta, coordenada por José Dirceu, inclui seis reformas prioritárias, sendo uma delas voltada ao Judiciário. O texto prevê ampliação da transparência, enfrentamento da hiperjudicialização e, principalmente, a instituição de códigos de ética e conduta para cortes superiores, “inclusive no Supremo Tribunal Federal”. A proposta está alinhada ao que defende o presidente da Corte, Edson Fachin, mas encontra resistência interna.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta se distanciar da crise. Em entrevista ao portal ICL Notícias, afirmou que o escândalo “prejudica a imagem do Supremo” e chegou a dizer que pediu a Alexandre de Moraes para se declarar impedido em casos ligados ao escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes — a banca tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master. Lula também disse ter alertado Moraes para não deixar o banqueiro Daniel Vorcaro “jogar sua biografia no lixo”.

A estratégia petista busca equilibrar críticas pontuais com evitar que a oposição explore o tema para desgastar a reeleição. O cálculo é arriscado: tanto Moraes quanto Toffoli têm laços próximos com Lula — o primeiro foi elogiado por liderar a investigação da trama golpista; o segundo, indicado pelo petista à Corte.

A percepção pública acompanha o desgaste. Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês mostrou que 53% dos brasileiros não confiam no STF, índice inédito desde o início da série histórica, em 2022. A reforma do Judiciário, antes tema de nicho, tornou-se palco de disputa eleitoral. A diferença está no tom: enquanto a oposição aposta no confronto, o governo aposta na autocorreção.

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