
Na aldeia Tupinambá do Acuípe de Cima, em Ilhéus (BA), onze famílias acessaram cerca de R$ 50 mil em crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para instalar agroflorestas e recompor áreas da Mata Atlântica degradadas. A iniciativa, visitada pela equipe do G1, marca a primeira vez que o grupo indígena consegue acessar financiamento estruturado para ampliar a produção sem abrir novas áreas.
O projeto prevê a recuperação de trechos desmatados e a expansão do cultivo de cacau em sistema cabruca, modelo tradicional que mantém as árvores nativas em pé e reduz a pressão sobre o bioma. A agrofloresta será formada pela combinação de cacau, banana, mandioca, feijão, coqueiro e espécies frutíferas, criando um ambiente que protege o solo, aumenta a retenção de água e favorece o retorno de biodiversidade. Parte da área que antes foi usada para pastagem deve voltar a abrigar vegetação da Mata Atlântica.
Origem do crédito
O acesso ao crédito foi viabilizado com apoio de ativadores de crédito da Conexsus, que auxiliam comunidades tradicionais na elaboração do projeto técnico, na negociação com bancos e na comprovação de uso adequado dos recursos. Para muitos agricultores indígenas, o financiamento parecia um instrumento distante por falta de informação, documentação e orientação técnica. Com a assessoria, o grupo conseguiu construir um plano de uso detalhado e cumprir os requisitos do Pronaf.
A experiência da aldeia ocorre no momento em que o financiamento climático é um dos principais eixos da COP30, em Belém (PA). A conferência discute como ampliar recursos para conservação de florestas tropicais e para sistemas agrícolas de baixa emissão.
A iniciativa dos Tupinambá integra essa agenda ao associar crédito rural, restauração florestal e produção de alimentos. O projeto também demonstra como políticas de financiamento podem chegar ao nível local e gerar resultados tangíveis na adaptação climática.
Ao final da implementação, os indígenas projetam maior estabilidade produtiva, diversificação de renda e recomposição de trechos do bioma que hoje tem apenas cerca de 24% da cobertura original. O modelo reforça a combinação de práticas tradicionais com instrumentos de financiamento público, alinhando a produção agrícola da comunidade aos compromissos climáticos defendidos pelo Brasil na COP30.