Reprodução/Redes Sociais

Em pouco mais de cinco meses, a estudante de Direito Ana Paula Veloso Fernandes, de 35 anos, se transformou de uma universitária aparentemente comum em acusada por uma série de assassinatos por envenenamento nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A investigação da Polícia Civil aponta que ela matou quatro pessoas — um locador de imóveis, uma amiga virtual, um idoso e o próprio namorado — movida pela ganância e pela frieza de quem via nas relações pessoais uma forma de lucro.

A prisão preventiva de Ana Paula, ocorrida em setembro, foi o ponto culminante de uma trama que começou a se desenhar dentro de uma faculdade em Guarulhos, na Grande São Paulo. Segundo o delegado Halisson Ideiao Leite, do 1º Distrito Policial da cidade, a polícia chegou até ela por meio de um caso inusitado: um bolo envenenado deixado numa sala de aula. Fingindo ser outra pessoa, a estudante escreveu um bilhete para os colegas: “Para a turma de Direito 4D, um ótimo feriadão! Um bolo para adoçar a manhã de vocês!”. Nenhum aluno chegou a comer o doce, mas a história levantou suspeitas.

De acordo com o delegado, Ana Paula alegou que o ato foi uma tentativa de incriminar a esposa de um policial militar com quem ela mantinha um relacionamento extraconjugal. “Ela foi até a nossa delegacia por conta desse evento, mas a partir desse inquérito descobrimos que não era vítima, e sim uma ‘serial killer’”, afirmou Leite em entrevista à TV Globo. A partir desse episódio, os investigadores passaram a cruzar dados e perceberam que Ana Paula aparecia ligada a outras mortes por envenenamento, todas registradas entre janeiro e maio de 2024.

As vítimas identificadas pela polícia são Marcelo Hari Fonseca, Maria Aparecida Rodrigues, Neil Corrêa da Silva e Hayder Mhazres. Em comum, todos tiveram contato direto com a estudante pouco antes de morrer e apresentaram sintomas típicos de intoxicação. O Ministério Público denunciou Ana Paula por quatro homicídios qualificados, com o agravante de motivo torpe — a obtenção de bens e dinheiro das vítimas.

O primeiro crime atribuído à universitária foi o de Marcelo Hari Fonseca, de 51 anos, dono do imóvel que alugava para as irmãs Ana Paula e Roberta Cristina Veloso Fernandes, também de 35 anos. Marcelo foi encontrado morto em casa, em Guarulhos, no fim de janeiro, em avançado estado de decomposição. Inicialmente tratado como morte natural, o caso foi arquivado em maio, mas reaberto após novas provas ligarem as irmãs à cena do crime.

Poucos meses depois, em abril, Ana Paula fez uma nova vítima: Maria Aparecida Rodrigues, uma amiga que conheceu por meio das redes sociais. Após um encontro na casa da estudante, onde tomou café e comeu bolo, Maria passou mal e morreu ao chegar em casa. A filha da vítima relatou à polícia que Ana Paula usou um nome falso e mostrou comportamento suspeito após o falecimento, tentando retornar à residência sob o pretexto de buscar roupas.

No mesmo mês, em Duque de Caxias (RJ), a terceira vítima surgiu: Neil Corrêa da Silva, de 65 anos, pai de uma ex-colega de faculdade de Ana Paula. O caso trouxe à tona a participação de Michelle Paiva da Silva, filha do idoso, que, segundo o Ministério Público, pagou R$ 4 mil às irmãs para que envenenassem o pai. As mensagens de WhatsApp apreendidas pela polícia mostram que as criminosas usavam o código “TCC” — uma ironia com o “Trabalho de Conclusão de Curso” — para se referirem ao pagamento pelo assassinato.

A investigação revelou ainda que Ana Paula testou o veneno antes de usá-lo, matando dez cães. O produto, suspeita-se, seria o popular “chumbinho”, raticida proibido no Brasil, conhecido por provocar edema pulmonar e falência de órgãos — sintomas encontrados nas quatro vítimas.

A quarta morte atribuída à estudante é a do tunisiano Hayder Mhazres, de 21 anos, namorado de Ana Paula. O jovem morreu repentinamente em São Paulo, após um mal-estar em seu apartamento. O corpo foi repatriado para a Tunísia, o que dificultou a análise toxicológica, mas para a polícia há indícios claros de envenenamento. Segundo depoimentos, Ana Paula chegou a dizer que estava grávida de Hayder e procurou a família dele pedindo dinheiro — uma mentira descoberta durante as investigações.

A irmã gêmea Roberta e Michelle, filha de Neil, também estão presas. Todas respondem por homicídio qualificado e associação criminosa. A Justiça mantém a prisão preventiva de Ana Paula em São Paulo, enquanto Roberta e Michelle cumprem prisão temporária em Guarulhos.

Os laudos periciais da Polícia Técnico-Científica ainda estão em andamento, mas três corpos já foram exumados. A polícia investiga se há outras possíveis vítimas e tenta rastrear a origem do veneno usado.

A história de Ana Paula Veloso Fernandes se impõe como uma das mais chocantes da crônica policial recente. Não apenas pelo número de vítimas, mas pela forma como a estudante manipulava vínculos afetivos para transformar confiança em arma letal.

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