Mercosul
Ricardo Stuckert / PR

Depois de mais de duas décadas de negociações marcadas por impasses, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia será formalmente assinado neste sábado (17), encerrando um processo iniciado no fim dos anos 1990 e frequentemente descrito por negociadores como um dos mais longos da história recente do comércio internacional.

O avanço foi celebrado nesta sexta-feira (16), durante reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Na ocasião, Lula afirmou que o acordo representa o fim de “25 anos de sofrimento” até a conclusão do entendimento e destacou seu caráter histórico. Apesar disso, o presidente brasileiro não participará da cerimônia de assinatura.

O Itamaraty informou que o Brasil será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A assinatura ocorrerá em nível ministerial, embora o presidente do Paraguai, Santiago Peña, tenha convidado chefes de Estado a participarem do evento, em razão da relevância política e simbólica do acordo.

Um acordo de grande escala

O tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de consumidores e economias que, juntas, respondem por mais de um quinto do Produto Interno Bruto global. O texto prevê a redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos produtos comercializados entre os dois blocos, além de regras comuns para serviços, investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual.

Para os países do Mercosul, como Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o acordo amplia o acesso ao mercado europeu, especialmente para produtos agropecuários e industriais. Para a União Europeia, abre espaço para a expansão de setores como indústria automotiva, máquinas, equipamentos, química e farmacêutica em um mercado sul-americano ainda pouco integrado às cadeias produtivas europeias.

Presenças políticas e disputas internas

A cerimônia de assinatura também expõe diferenças políticas dentro do próprio Mercosul. O presidente da Argentina, Javier Milei, confirmou presença no evento, apesar de ter sido historicamente crítico do bloco, ao qual já comparou a uma “cortina de ferro”. Após o acordo receber sinal verde dos países europeus, Milei passou a celebrar o avanço como uma vitória pessoal, alinhada à sua agenda de abertura econômica e liberalização comercial.

A presença do presidente argentino contrasta com sua retórica anterior e reflete o peso político do acordo no cenário regional, além de evidenciar como o tratado passou a ser apropriado de maneiras distintas por diferentes governos sul-americanos.

O significado político e geopolítico para o Mercosul

Mais do que um acordo comercial, o tratado tem peso geopolítico. Em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, tensões entre grandes potências e avanço de políticas protecionistas, o entendimento entre Mercosul e União Europeia é apresentado por seus defensores como uma reafirmação do multilateralismo, da cooperação internacional e da previsibilidade nas relações econômicas.

Durante a reunião no Brasil, Lula e von der Leyen ressaltaram que o acordo também incorpora compromissos relacionados à democracia, aos direitos humanos e à agenda ambiental, elementos que ganharam centralidade ao longo das negociações e foram decisivos para destravar resistências dentro do bloco europeu.

Resistências e controvérsias

Apesar da assinatura, o acordo segue cercado de controvérsias. Dentro da União Europeia, países como França, Irlanda e Polônia mantêm forte resistência, especialmente por parte de setores agrícolas que temem concorrência de produtos sul-americanos. Alemanha e Espanha, por outro lado, defendem o tratado como estratégico para ampliar mercados e reforçar a competitividade europeia.

Organizações ambientalistas também questionam os efeitos do acordo sobre biomas sensíveis, como a Amazônia, e cobram garantias mais robustas quanto ao cumprimento das cláusulas ambientais previstas no texto.

Com a assinatura, inicia-se uma nova fase. O acordo precisará ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos nacionais dos países do Mercosul. Na Europa, há expectativa de disputas jurídicas e políticas que podem atrasar o processo ou impor condicionantes adicionais. No Mercosul, o trâmite também exigirá articulação política interna.

A implementação deverá ocorrer de forma gradual, com prazos longos para a redução de tarifas em setores considerados sensíveis. Até lá, os efeitos concretos do tratado permanecerão condicionados ao ambiente político e à capacidade dos governos de sustentar o acordo diante de pressões internas.

O que está em jogo

O acordo Mercosul–União Europeia encerra uma negociação histórica, mas inaugura um período decisivo. Seu impacto real dependerá da ratificação, do cumprimento das cláusulas ambientais e do contexto político nos dois blocos. Para o Brasil, o tratado representa uma aposta na diversificação de parceiros e na reaproximação estratégica com a Europa. Para a União Europeia, é uma tentativa de ampliar sua presença econômica em um mundo cada vez mais competitivo.

A assinatura deste sábado marca o fim de uma longa espera, mas não o fim do processo. O que foi negociado ao longo de 25 anos ainda precisará se consolidar politicamente antes de produzir efeitos concretos.

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