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A menos de três meses do pontapé inicial da Copa do Mundo 2026, o Brasil ainda não deixou para trás a sensação de obra inacabada. A campanha irregular nas Eliminatórias, a falta de uma identidade tática consolidada e a derrota recente para a França sem qualquer traço de competitividade mantêm a torcida mais ansiosa do que esperançosa. O elenco é, no papel, o mais valioso do mundo, mas valor de mercado nunca garantiu taça.

Carlo Ancelotti usa a Data Fifa de março como laboratório final. Com sete desfalques entre os potenciais titulares para a estreia no Mundial, marcada para o dia 13 de junho contra Marrocos, as últimas vagas da convocação ganham peso especial. Pelo menos 18 nomes estão praticamente certos, restam algumas posições em aberto: a tendência aponta para dois defensores, volantes, um lateral-esquerdo, e dois entre meias e atacantes.

A base que Ancelotti quer levar ao torneio já tem contornos claros. Nos gols, Alisson e Ederson. Na defesa, Marquinhos e Gabriel Magalhães são titulares, com Alex Sandro, Danilo e Wesley cobrindo as laterais. No meio, Casemiro e Bruno Guimarães formam a espinha dorsal. No ataque, Vinícius Júnior, Raphinha, Matheus Cunha, Gabriel Martinelli, João Pedro e Estêvão completam o grupo de presença praticamente assegurada.

É um elenco de encher os olhos no papel. Vinícius Jr. vive grande fase no Real Madrid, Raphinha é peça fundamental no Barcelona, e os jovens Estêvão e João Pedro prometem o protagonismo que ostentam no Chelsea. Mas entre o talento individual e o desempenho coletivo em um torneio de alta pressão, a Seleção ainda precisa encontrar o elo perdido.

A briga pelas últimas vagas

Entre os oito novatos convocados para os amistosos de março contra França e Croácia, cinco já entraram em campo, e o desempenho de cada um tem sido observado sob lupa por Ancelotti e sua comissão técnica.

Léo Pereira foi elogiado pelo treinador após uma atuação segura diante do provável melhor ataque entre seleções do mundo. Mostrou personalidade, ousou nos passes verticais e deve ser titular também contra a Croácia. Bremer fez um gol, quase marcou outro e distribuiu passes precisos, mas a comissão avalia que precisa ser mais efetivo com os pés desde a defesa e a tendência é que fique no banco com a volta de Marquinhos.

Danilo Santos foi uma das boas surpresas. Em apenas 19 minutos, mostrou incisividade no campo de ataque, cobrou a falta que gerou o gol de Bremer e acertou todos os passes que tentou. Ancelotti o testa para jogar ao lado de Casemiro. Gabriel Sara, com 15 minutos em campo, também deixou boa impressão e é visto pelo treinador como um meia, não como volante. Ibañez disputa uma vaga como lateral direito improvisado e tem sido monitorado de perto.

O fator Neymar

Nenhuma discussão mobiliza tanto o ambiente da Seleção quanto a convocação, ou não, de Neymar Jr. O camisa 10 do Santos vive um período de irregularidade que divide especialistas, ex-jogadores e jornalistas de forma quase irreconciliável.

Do lado dos favoráveis, o jornalista André Hernan é categórico: “Para ontem! Mesmo que não esteja 100% fisicamente, a presença dele é importante.” Ronaldo Fenômeno adotou posição mais ponderada ao dizer que, se estiver fisicamente bem, Ancelotti provavelmente o levará, pois “taticamente é um jogador muito importante.” Ricardo Rocha, um dos maiores defensores do craque ao longo da carreira, resumiu a situação com precisão cirúrgica: “Hoje, está fora. Se melhorar, está dentro.”

Do lado contrário, as opiniões são duras. O ex-jogador Dodô foi direto: “Quem está fora da Seleção que poderia estar? A nossa seleção é esse time convocado. O cara que não acompanha futebol pede o Neymar.” Fred Caldeira foi ainda mais incisivo ao comentar os pedidos da torcida nas arquibancadas durante o jogo contra a França: “São pessoas que estão claramente num processo de delírio.” O narrador Luis Roberto, mais equilibrado, condicionou a convocação a uma “sequência forte” de jogos até o dia 18 de maio, data prevista para o anúncio final. O jornalista Marcelo Hazan concorda que Ancelotti acertou ao não chamá-lo nos amistosos de março, mas deixa a porta entreaberta: “A discussão existe porque estamos falando de um gênio.”

As favoritas ao título

Se o Brasil chega ao torneio entre interrogações, outros países chegam com certezas. A Espanha lidera o ranking da Fifa e o favoritismo nas casas de apostas após conquistar a Eurocopa 2024 vencendo todos os sete jogos que disputou. Invicta desde março de 2023, a Roja combina a juventude explosiva de Lamine Yamal, Pedri, Gavi e Nico Williams com a experiência de Rodri. Uma geração rara, no auge coletivo.

A França chega como vice-campeã de 2022 e com o elenco considerado o mais talentoso individualmente do mundo. Kylian Mbappé estará aos 27 anos, no pico absoluto da carreira, rodeado por Dembélé, Camavinga e Tchouaméni. Didier Deschamps busca seu segundo título. A Argentina, atual campeã, mantém a base que conquistou o mundo no Qatar com Dibu Martínez, De Paul e Julián Álvarez, mas carrega a dúvida sobre o estado físico de Lionel Messi, que terá 39 anos durante o torneio.

A Inglaterra aposta em sua melhor geração em décadas. Bellingham, Foden e Rice formam um meio-campo de alto nível, com Harry Kane ainda em excelente fase aos 32. O técnico Thomas Tuchel foi contratado especificamente para o projeto, com a missão de encerrar um jejum de 60 anos desde o único título inglês.

As surpresas que podem aparecer

O formato com 48 seleções e a realização em solo norte-americano abrem espaço para zebras. Os EUA chegam como sede com uma geração promissora encabeçada por Pulisic, e o fator casa historicamente favorece os anfitriões. Marrocos, que fez história ao chegar à semifinal no Qatar, mantém a base com Hakimi e En-Nesyri. A Holanda, apesar de nunca ter conquistado o título, tem em Van Dijk e De Jong uma dupla de peso. A Croácia, vice em 2018 e terceira colocada em 2022, mostrou ao mundo que mentalidade e organização coletiva valem tanto quanto estrelas individuais.

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