
O Banco Central reduziu sua estimativa de crescimento do PIB brasileiro para 2025 de 2,1% para 2% e projetou expansão ainda menor para 2026, de apenas 1,5%, sinalizando um cenário de desaceleração econômica prolongada. As revisões, divulgadas no relatório de política monetária do terceiro trimestre, ocorrem em meio à manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, maior patamar em quase duas décadas.
Para 2026, ano marcado por eleições presidenciais, é a primeira vez que o BC divulga estimativa oficial. A instituição justifica a projeção pessimista pela “manutenção da política monetária em campo restritivo, o baixo nível de ociosidade dos fatores de produção, a perspectiva de desaceleração da economia global e a ausência do impulso agropecuário observado em 2025”.
As projeções contrastam significativamente com o crescimento de 3,4% registrado em 2024, o maior em dois anos, mas refletem os efeitos da política monetária restritiva adotada para combater pressões inflacionárias. O BC informou que o “hiato do produto” permanece positivo, indicando que a economia continua operando acima de seu potencial sem pressionar a inflação.
Divergências entre BC e governo
As projeções do Banco Central geram tensão com o governo federal, que busca crescimento mais robusto em ano pré-eleitoral. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, contestou publicamente o patamar atual dos juros, afirmando haver “espaço para o juro básico da economia recuar” e que a taxa “nem deveria estar no atual patamar de 15%”.
“Eu entendo que tem espaço para esse juro cair. Acredito que nem deveria estar em 15%. Essa opinião, boa parte do mercado compartilha”, declarou Haddad, ressaltando que o presidente do BC, Gabriel Galípolo, “tem os quatro anos de mandato dele e vai entregar um resultado consistente ao Brasil”.
A equipe econômica do governo trabalha com meta de expansão do PIB acima de 3% ao ano, distante das projeções do BC. No projeto de lei orçamentária de 2026, enviado ao Congresso em agosto, o governo estimou crescimento de 2,44% para o próximo ano, ainda assim superior à projeção da autoridade monetária.
Impactos fiscais e eleitorais
A desaceleração econômica projetada cria desafios fiscais significativos para o governo Lula, que busca reeleição em 2026. O menor crescimento resulta em redução da arrecadação federal, como já observado em agosto, quando houve queda real de 1,5% na comparação anual.
Na frente inflacionária, o BC reduziu ligeiramente sua estimativa para 2025, de 4,9% para 4,8%, mas mantém projeção de “estouro” da meta até o final do ano. Com o novo sistema de meta contínua, o objetivo é manter a inflação em 3%, considerada dentro da meta se variar entre 1,5% e 4,5%.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, já precisou enviar carta pública a Haddad explicando o descumprimento da meta por seis meses consecutivos até junho, atribuindo o resultado à atividade econômica aquecida, variação cambial, custos de energia elétrica e anomalias climáticas.
Analistas avaliam que, apesar da valorização de quase 14% do real neste ano e recordes do Ibovespa, incertezas sobre o cenário fiscal brasileiro continuam preocupando o mercado. A aproximação de 2026 e o início do ano eleitoral tendem a amplificar essas preocupações, especialmente quanto a possíveis ajustes nos programas de transferência de renda e definições orçamentárias.