racismo
Reprodução/Youtube/Alesp

A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) registrou nesta quarta-feira (18) um episódio que ampliou a tensão política e provocou reação imediata entre parlamentares e nas redes sociais. A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL-SP) se pintou de preto durante discurso em plenário, em uma encenação de blackface, prática historicamente associada ao racismo e à ridicularização de pessoas negras.

A ação foi utilizada como argumento para questionar a identidade de mulheres trans e criticar a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), atual presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados. Durante a fala, Fabiana comparou a pintura da própria pele à identidade de pessoas trans, afirmando que a aparência não alteraria a “essência” de uma pessoa.

O gesto, realizado em plenário e transmitido ao vivo, gerou reação imediata e ampliou a repercussão ao combinar referências históricas do racismo com ataques a identidades de gênero no ambiente institucional.

Quem é Fabiana Bolsonaro

Fabiana Bolsonaro é deputada estadual eleita por São Paulo pelo PL, partido que abriga o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), de quem herdou o sobrenome profissional. Apesar do nome, ela não integra a família do ex-presidente. O nome político foi adotado como estratégia de identificação com o campo bolsonarista, ao qual está alinhada publicamente.

Sua atuação parlamentar tem sido marcada por pautas conservadoras, especialmente em temas relacionados a costumes, gênero e educação. Em redes sociais e discursos, costuma defender posições alinhadas à direita e ao eleitorado bolsonarista.

Reação e denúncia formal contra racismo

A deputada estadual Ediane Maria (PSOL-SP) anunciou que irá protocolar representação na Comissão de Ética por quebra de decoro parlamentar e acionar o Ministério Público por racismo e transfobia.

“Fabiana Bolsonaro passou de todos os limites e cometeu racismo no plenário. São 137 anos da escravidão e temos que presenciar uma mulher branca, que raramente aparece no plenário, para falar a favor das mulheres, se pintando de preto para atacar a Erika Hilton. Isso é um crime em flagrante. É uma afronta à história deste país”, afirmou.

A parlamentar também indicou que medidas institucionais estão sendo adotadas para responsabilização do caso.

Origem e significado do blackface

A prática de blackface tem origem no século XIX, nos Estados Unidos, e foi utilizada em espetáculos que reforçavam estereótipos racistas e desumanizantes sobre a população negra. Ao longo do tempo, passou a ser reconhecida como manifestação de racismo, por carregar um histórico de exclusão e violência simbólica.

No Brasil, a prática também esteve presente em manifestações culturais e programas de entretenimento, sendo alvo de críticas por movimentos sociais e especialistas, que apontam sua relação com a construção de estigmas raciais.

Implicações legais e debate institucional

A representação anunciada por Ediane Maria deverá ser analisada pela Comissão de Ética da Alesp, que pode avaliar eventual quebra de decoro parlamentar. No campo jurídico, o caso pode ser investigado com base na legislação que trata de crimes de racismo e discriminação.

Especialistas em direito constitucional apontam que a imunidade parlamentar não impede responsabilização em situações que possam configurar crime.

Repercussão da bolsonarista

O episódio ocorre em meio ao aumento de disputas políticas envolvendo identidade de gênero e direitos da população trans. A presença de Erika Hilton em posição de destaque no Legislativo tem sido alvo de críticas de setores conservadores.

A utilização de uma encenação historicamente associada ao racismo para sustentar esse argumento ampliou a repercussão do caso e deslocou o debate para o campo institucional, envolvendo responsabilidade parlamentar, limites do discurso político e proteção de direitos fundamentais.

O caso deve seguir em análise nas esferas política e jurídica, com possíveis desdobramentos na Alesp e no Ministério Público.

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