Nikolas
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O uso de um jatinho vinculado ao grupo empresarial de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, por Nikolas Ferreira (PL-MG) durante o segundo turno da eleição de 2022 ampliou a crise política em torno do escândalo financeiro que atinge o banqueiro. A informação foi revelada nesta terça-feira (3) pela coluna de Malu Gaspar, no O Globo, com detalhes sobre rotas, datas e contexto da campanha.

Segundo a reportagem, o Embraer 505 Phenom 300, prefixo PT-PVH, foi utilizado nos deslocamentos da caravana “Juventude pelo Brasil”, liderada por Nikolas e pelo pastor Guilherme Batista, da Igreja Batista da Lagoinha. A agenda tinha como objetivo buscar votos para Jair Bolsonaro (PL) em regiões onde Lula havia vencido no primeiro turno.

A aeronave percorreu, entre 20 e 28 de outubro de 2022, pelo menos nove estados e o Distrito Federal, passando por todas as capitais do Nordeste, além de cidades estratégicas no Vale do Jequitinhonha e no Triângulo Mineiro. O histórico de navegação foi confirmado por meio de sinais de transponder ADS-B captados por plataformas de monitoramento aéreo, segundo a coluna.

As rotas coincidem com eventos de campanha realizados por Nikolas e pelo pastor, muitos deles em igrejas evangélicas. Em 21 de outubro, por exemplo, o jato estava em Salvador, onde a caravana realizou agenda na véspera. Depois seguiu para Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal, Teresina, São Luís e Imperatriz. Às vésperas da votação, a aeronave também esteve em Uberlândia e sobrevoou cidades do Vale do Jequitinhonha, região onde Lula havia obtido quase 70% dos votos no primeiro turno.

A propriedade formal da aeronave é da Prime You, empresa que tinha Vorcaro como sócio à época. A companhia também é dona de outros bens ligados ao banqueiro, incluindo aeronaves e imóveis. A Prime afirmou, em nota, que o avião operava como táxi aéreo e que os voos foram fretados dentro das regras do setor, alegando não poder divulgar informações sobre contratantes por força da LGPD.

Nikolas confirmou as viagens, mas afirmou não saber que o avião estava vinculado a Vorcaro. “Sou responsável por ato futuro de alguém?”, questionou, em vídeo. Em nota, declarou que nunca teve relação comercial ou institucional com o banqueiro e que, em 2022, não havia qualquer informação pública que indicasse irregularidade. “Eu nunca apertei a mão de Vorcaro”, afirmou.

Repercussão no Congresso e linha de defesa

A revelação provocou reação imediata no Congresso. A deputada Érika Hilton (PSOL-SP) protocolou representação na Câmara solicitando apuração sobre eventual conflito ético e político. O deputado Rogério Correia (PT-MG) pediu que a CPMI do Banco Master avalie a quebra de sigilo de Nikolas para verificar se houve qualquer relação financeira ou logística relacionada ao caso.

Parlamentares da oposição argumentam que a coincidência entre o uso da aeronave e a campanha eleitoral reforça a necessidade de esclarecimentos, sobretudo porque o escândalo do Banco Master ganhou proporções nacionais e envolve investigações financeiras de grande alcance.

Em resposta pública, Nikolas adotou uma linha de defesa que buscou afastar qualquer vínculo com Vorcaro e deslocar o foco para o governo Lula. O deputado afirmou que, à época, o nome do banqueiro “não era de conhecimento público” e sugeriu que as críticas seriam uma tentativa de desviar a atenção de problemas atuais do governo federal.

Nikolas Ferreira e Guilherme Batista. Foto: reprodução

A reação do parlamentar ocorre apesar de registros fotográficos nas redes sociais que o mostram diante da aeronave durante a caravana eleitoral, ao lado de integrantes da Lagoinha e influenciadores cristãos envolvidos na mobilização pró-Bolsonaro.

Conexões de Nikolas ampliam pressão

A reportagem também contextualiza os vínculos históricos entre Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha. Seu pai se aproximou da instituição por meio da família, sua irmã e seu cunhado são pastores, e o próprio banqueiro já apresentou programa em emissora ligada à igreja. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador político do grupo, foi um dos maiores doadores pessoa física da campanha de Bolsonaro, com R$ 3 milhões, além de R$ 2 milhões para Tarcísio de Freitas.

Como os atos da caravana não integravam formalmente a campanha registrada de Bolsonaro, o uso da aeronave não precisou ser declarado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Com a entrada do caso no Congresso, o episódio deixa de ser apenas um desdobramento do escândalo financeiro e passa a ter dimensão política direta. A atuação da CPMI poderá definir se o tema avançará para investigação formal ou permanecerá restrito ao embate partidário.

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