
Em agenda oficial na China na última quarta-feira (21), o governo brasileiro apresentou a empresas e autoridades chinesas as descobertas recentes de lítio e terras raras no Brasil, como parte de uma estratégia voltada à atração de investimentos estrangeiros em minerais considerados críticos para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia. A iniciativa foi conduzida pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e incluiu reuniões com grandes grupos industriais chineses dos setores de baterias, mineração, energia e tecnologia nuclear.
Durante encontro com executivos da CATL, maior fabricante de baterias do mundo, Silveira apresentou o Brasil como um ambiente aberto à atração de capital estrangeiro e destacou condições que, segundo o governo, favorecem investimentos de longo prazo, como estabilidade institucional, segurança jurídica e previsibilidade regulatória. A empresa chinesa ocupa posição central na cadeia global de veículos elétricos e fornece baterias para montadoras como Tesla, BMW, Volkswagen e Ford.
A agenda brasileira teve como eixo central a apresentação do potencial geológico do país em minerais estratégicos e a defesa de uma política que vá além da extração. Segundo o ministro, o objetivo do governo é internalizar etapas relevantes da cadeia produtiva, priorizando investimentos em processamento, fabricação de componentes, células e baterias a partir desses insumos no território nacional.
Minerais críticos e reposicionamento estratégico
O movimento ocorre em um contexto de crescente disputa global por minerais críticos, insumos essenciais para a produção de baterias, semicondutores, equipamentos de energia renovável e tecnologias de defesa. A China ocupa posição dominante em diversas etapas dessas cadeias produtivas, especialmente no processamento de terras raras e na fabricação de baterias, o que confere ao país influência significativa sobre fluxos globais de suprimento.
Ao apresentar as descobertas brasileiras diretamente a empresas chinesas, o governo busca reposicionar o Brasil como fornecedor estratégico não apenas de matéria-prima, mas também como destino para investimentos industriais associados à transição energética. A estratégia sinaliza uma tentativa de reduzir a dependência de exportações primárias e ampliar o valor agregado da produção mineral.
Agenda ampliada: mineração, indústria pesada e energia nuclear
Além do encontro com a CATL, Alexandre Silveira esteve em Changsha, na província de Hunan, onde se reuniu com executivos do Grupo SANY, um dos maiores conglomerados industriais do mundo nas áreas de máquinas pesadas, equipamentos para mineração, energia e infraestrutura. O diálogo incluiu oportunidades de cooperação em projetos de mineração e logística associada à exploração mineral.
A agenda internacional incluiu ainda o setor de energia nuclear, tema recorrente nas declarações públicas do ministro. Em Xangai, Silveira participou de reunião com o economista-chefe da China National Nuclear Corporation, estatal responsável pelo desenvolvimento do programa nuclear chinês.
O encontro teve como foco o aprofundamento do diálogo sobre pequenos reatores modulares, tecnologia considerada estratégica para ampliar a geração de energia de base, com menor custo inicial, maior flexibilidade operacional e aplicação em regiões remotas ou com menor infraestrutura energética.
Segundo o ministro, o fortalecimento do setor nuclear brasileiro depende da atração de investimentos privados, especialmente nas áreas de pesquisa mineral, exploração e desenvolvimento da cadeia produtiva do urânio.
Disputa global por minerais críticos amplia interesse sobre o Brasil
A apresentação do potencial brasileiro de lítio e terras raras a empresas chinesas ocorre em um cenário de crescente disputa geopolítica por minerais estratégicos. Além da China, os Estados Unidos também passaram a demonstrar interesse direto nesses recursos, especialmente a partir de posições defendidas pelo presidente Donald Trump, que tem apontado a dependência norte-americana de cadeias controladas por Pequim como um risco econômico e de segurança nacional.
O Brasil reúne ativos centrais nesse contexto. O país concentra grande parte das reservas globais de nióbio, possui áreas com potencial crescente para terras raras, especialmente em Minas Gerais, e vem ampliando a exploração de lítio, mineral-chave para baterias e tecnologias de transição energética. Esses fatores explicam por que o país passou a figurar de forma mais explícita no radar de grandes potências interessadas em diversificar suas fontes de suprimento.
Nesse ambiente, a ofensiva diplomática brasileira na China não ocorre de forma isolada, mas se insere em uma disputa mais ampla entre Estados Unidos e China por influência sobre cadeias globais de minerais críticos. A posição estratégica do Brasil amplia oportunidades de investimento e de agregação de valor, ao mesmo tempo em que impõe desafios de coordenação diplomática e definição de interesses de longo prazo.
Mas o que são terras raras e por que são estratégicas
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos utilizados principalmente na fabricação de ímãs permanentes de alta potência, fundamentais para motores elétricos, turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa e tecnologias de comunicação.
Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente escassos na natureza, mas sua extração e, sobretudo, seu processamento são complexos, custosos e ambientalmente sensíveis. Por essa razão, poucos países dominam toda a cadeia produtiva.
Atualmente, a China concentra grande parte do processamento global de terras raras, o que confere ao país vantagem estratégica em setores-chave da economia mundial. O controle dessas cadeias é considerado um fator central para a transição energética, a segurança tecnológica e a competitividade industrial nas próximas décadas.