
Um novo recorte do Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira (9), revela um retrato preocupante da desigualdade de renda no Brasil. Os dados mostram que o Distrito Federal lidera o ranking nacional de disparidade, enquanto Santa Catarina apresenta os menores índices de concentração de renda.
O levantamento utilizou o Índice de Gini, que varia de 0 (igualdade total) a 1 (desigualdade extrema), para medir a distância entre os rendimentos dos mais ricos e dos mais pobres. O Distrito Federal registrou Gini de 0,584, o mais alto do país, seguido por Rio de Janeiro (0,574), Roraima (0,572), Amazonas (0,572) e Pernambuco (0,564). A média nacional ficou em 0,542.
Na outra ponta, os estados da região Sul apresentaram os menores índices de desigualdade. Santa Catarina liderou com Gini de 0,452, seguida por Paraná (0,482) e Rio Grande do Sul (0,484). A região Sul como um todo teve o menor índice regional (0,476), cerca de 12% abaixo da média nacional, enquanto o Norte foi o mais desigual, com índice de 0,545.
Um dado curioso revela que alta renda média pode coexistir com forte desigualdade. O Distrito Federal, apesar de liderar a concentração de renda, também teve a maior renda per capita do país em 2022 (R$ 2.999), seguido por Santa Catarina (R$ 2.220). O Paraná, que possui a segunda menor desigualdade do Brasil, combina baixa concentração de renda com taxa de ocupação elevada, com cerca de 60% das pessoas com 14 anos ou mais empregadas. A renda média mensal dos trabalhadores paranaenses chega a R$ 3.151,59, cerca de 9% acima da média nacional de R$ 2.850,64.
Dependência do salário mínimo
O Censo também revelou que 35,3% da população ocupada recebia até um salário mínimo em 2022, o que equivale a 31,3 milhões de brasileiros com rendimento mensal de até R$ 1.212. A composição racial evidencia as desigualdades estruturais: a maioria era composta por pessoas pardas (52,4%), seguidas por brancos (32,8%) e pretos (13,9%). Aproximadamente 43% dos trabalhadores pardos e pretos estão nesta faixa de renda mais baixa, enquanto entre os brancos esse percentual cai para cerca de 25%. Entre a população indígena, a situação é ainda mais crítica, com quase 57% na categoria de rendimento mais baixa.
Ao comparar com o Censo de 2010, os dados mostram estagnação preocupante. Naquele ano, 36,4% dos ocupados estavam na mesma faixa de renda, mas a proporção de trabalhadores que ganhavam acima de cinco salários mínimos era maior, chegando a 9,6%, contra apenas 7,6% em 2022.
As disparidades regionais também são evidentes. Enquanto o Centro-Oeste apresentou a maior média salarial (R$ 3.292), impulsionado pelo agronegócio e funcionalismo público, as regiões Norte (R$ 2.238) e Nordeste (R$ 2.015) ficaram muito abaixo da média nacional.
Apesar dos avanços que elevaram o Brasil para a 84ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com nota de 0,786, o país ainda enfrenta níveis alarmantes de desigualdade. Segundo o Banco Mundial, o coeficiente de Gini brasileiro ficou em torno de 0,52, colocando o país entre os piores do mundo nesse quesito. Especialistas apontam como causas o sistema tributário regressivo, desigualdade regional, informalidade no mercado de trabalho e falta de acesso à educação e saúde de qualidade.