Reprodução/Summit Saúde

As injeções semanais para perda de peso consolidaram-se em 2025 como o fenômeno mais marcante da indústria farmacêutica brasileira, movimentando cerca de R$ 11 bilhões e redefinindo o tratamento da obesidade. Segundo estimativas da consultoria UBS, o segmento de medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, deve quase dobrar de tamanho em 2026, chegando perto de R$ 20 bilhões. O que hoje ainda carrega a aura de produto caro e de nicho começa a ganhar escala, e o próximo ano pode marcar o ponto de virada desse mercado.

O principal gatilho para essa transformação está no calendário. A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Rybelsus, expira em 20 de março de 2026, prazo mantido recentemente pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) ao negar, por unanimidade, o pedido da farmacêutica Novo Nordisk para estender a exclusividade até 2038. A empresa argumentava que houve demora do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) na análise do pedido e que deveria ter esse tempo compensado. No entanto, o tribunal aplicou entendimento já firmado pelo Supremo Tribunal Federal em 2021: não há previsão legal para prorrogar patentes no Brasil por causa de atrasos administrativos.

Com o fim da exclusividade, laboratórios concorrentes poderão vender versões genéricas ou similares da semaglutida, desde que aprovadas pela Anvisa. Especialistas apontam que a entrada de genéricos costuma reduzir os preços em cerca de 30% a 50%, dependendo do nível de concorrência. Hoje, uma caneta de semaglutida custa cerca de R$ 1 mil, valor que limita o acesso em larga escala. A combinação entre versões potencialmente mais baratas da semaglutida e a maior disponibilidade da tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) cria o cenário para uma expansão acelerada do mercado.

Os números do fim de 2025 mostram que o salto já começou. O Brasil deve registrar cerca de R$ 4 bilhões em vendas de GLP-1 no quarto trimestre, com a tirzepatida já respondendo por 57% do total no período, à frente da semaglutida, com 43%. Lançado oficialmente no Brasil em junho, o Mounjaro foi responsável por alçar a fabricante Eli Lilly ao topo entre os laboratórios mais valiosos do planeta, liderando um movimento que movimenta mais de US$ 65 bilhões no mundo.

Apesar da popularização crescente, o consumo no Brasil ainda está bem abaixo do seu potencial. A estimativa é que o país tenha atualmente cerca de 1 milhão de caixas consumidas por mês, o equivalente a 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos adultos obesos. Sinal de que preço e oferta ainda são as principais travas para a popularização desses produtos. A procura é impulsionada pelo avanço global do excesso de peso, que já atinge mais de 1 bilhão de pessoas. Nos Estados Unidos, estima-se que 10% da população utilize ou já tenha utilizado agonistas de GLP-1.

O Mounjaro deve ser o vetor que acelera a transição do mercado de nicho para a escala. Na leitura do UBS, a tirzepatida tende a ganhar espaço por eficácia e apelo clínico, enquanto a semaglutida deve ganhar volume quando o preço cair no pós-patente. É essa combinação que sustenta a tese de que 2026 será o ano de virada. O CEO da Hypera, Breno Oliveira, classificou o fim da exclusividade da semaglutida como “a maior oportunidade do mercado farmacêutico brasileiro em uma década”.

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Corrida pelo ouro

A corrida também passa por capacidade industrial. A EMS investiu mais de R$ 1 bilhão em uma fábrica de peptídeos no interior de São Paulo, apostando na produção local das canetas assim que o monopólio da Novo Nordisk chegar ao fim. Em agosto, a companhia lançou suas primeiras canetas de liraglutida produzidas no Brasil. Para 2026, a projeção é colocar no mercado 500 mil unidades. A própria Novo Nordisk firmou parceria com a Eurofarma para distribuir uma “segunda marca” de semaglutida, sinal de que o mercado já está se reorganizando.

Esse processo de transição vem acompanhado de um mercado paralelo alimentado por arbitragem de preços e canais fora do circuito tradicional. Uma dose baixa de tirzepatida custaria cerca de R$ 294 em farmácias paraguaias, enquanto no Brasil o Mounjaro varia de R$ 1.400 a R$ 3.000. A diferença abre espaço para compras em viagem, importação informal e revenda. Para conter abusos, a Anvisa passou a exigir retenção de receita e restringiu a produção de fórmulas manipuladas, algumas delas feitas com substâncias ainda em estudo.

Do lado do varejo, o efeito mais imediato aparece nas farmácias. O UBS estima que a RD Saúde capture algo como 35% das vendas de GLP-1, e os medicamentos já podem representar quase 12% das vendas de varejo da rede no quarto trimestre, transformando o tema em categoria relevante de receita e tráfego.

O impacto extrapola a saúde e o varejo farmacêutico. Setores como alimentação e vestuário precisaram se adaptar a consumidores que comem menos e mudam rapidamente de numeração. Pesquisas nos EUA apontam que mais da metade dos usuários relata consumir menos calorias, com queda em categorias como fast food, sorvetes, refrigerantes e snacks açucarados, enquanto água, vegetais, frutas e carnes brancas ganham espaço. Na moda, a perda de peso pode acelerar ciclos de renovação do guarda-roupa, mas também pode elevar risco de estoque.

De olho no SUS

A discussão mais sensível, porém, envolve o Sistema Único de Saúde. Hoje, o SUS não oferece nenhum medicamento específico para tratar a obesidade. O alto custo é o principal entrave: segundo o Ministério da Saúde, a inclusão da semaglutida custaria cerca de R$ 8 bilhões por ano — quase o dobro do orçamento do Farmácia Popular. A Conitec, comissão que trata da incorporação de tecnologias no sistema público, estimou que os custos adicionais poderiam chegar a R$ 7 bilhões em cinco anos e recomendou não incorporar liraglutida e semaglutida.

Com genéricos mais baratos, esse cenário pode mudar. O Ministério da Saúde já pediu à Anvisa prioridade na análise de cerca de 20 novas canetas de semaglutida e liraglutida. “Com a entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e aumento da concorrência, os preços devem cair de forma significativa. Esse é um fator determinante para a análise de sua possível incorporação ao SUS”, informou a pasta em nota.

O Brasil vive um cenário crítico: sete em cada dez adultos estão acima do peso e 31% já são obesos. Entre quem depende do SUS, o problema cresce mais rápido. Hoje, a única alternativa terapêutica é a cirurgia bariátrica, mas apenas cerca de 10% das cirurgias feitas no país ocorrem pelo sistema público. Especialistas defendem que a chegada das canetas ao SUS poderia ser um divisor de águas no tratamento, desde que acompanhada de critérios rigorosos e acompanhamento multiprofissional, reforçando que a obesidade é uma doença multifatorial e que o medicamento não pode ser a única estratégia.

Com a chegada de marcas nacionais mais acessíveis e o desenvolvimento de comprimidos de alta potência, o mercado se prepara para um novo capítulo na corrida por tratamentos de emagrecimento, que deixa de ser apenas uma disputa de farmácia e indústria para tocar em financiamento, priorização de gasto em saúde e desenho de políticas públicas.

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