Tarcísio
Pablo Jacob /Governo do Estado de SP

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, elevou o tom contra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao classificá-lo como “cara de pau” após declarações em que o chefe do Executivo paulista afirmou que o Brasil vive uma “crise moral” mais grave do que a crise fiscal. A crítica foi publicada nas redes sociais nesta sexta-feira (30) e rapidamente ganhou repercussão no noticiário político nacional.

O enquadramento de Gleisi não se limita à retórica. Ao rebater o discurso moralizante de Tarcísio, a ministra recoloca no debate público as alianças políticas e financeiras que sustentaram a ascensão do governador, especialmente sua relação indireta com o Banco Master, hoje no centro de investigações e controvérsias.

A fala de Tarcísio que motivou a reação ocorreu no início da semana, durante evento em São Paulo, quando ele elogiou uma mobilização organizada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), finalizada com hospitalizados após um raio atingir manifestantes, e afirmou que o país enfrenta uma deterioração moral que “arruína as instituições”. O governador também defendeu que essa crise seria mais grave do que o desequilíbrio das contas públicas, argumento que passou a circular como novo eixo discursivo da direita bolsonarista.

Para Gleisi, o problema não está apenas no conteúdo da fala, mas na contradição entre discurso e trajetória política. “É muita cara de pau sair falando em crise moral quando o maior financiador individual das campanhas dele e de Bolsonaro foi ligado ao Banco Master”, escreveu a ministra, ao associar diretamente a retórica de Tarcísio ao histórico de seus apoiadores.

Quem financiou o discurso moral de Tarcísio

A crítica de Gleisi se apoia em dados objetivos sobre o financiamento da campanha de Tarcísio ao governo de São Paulo em 2022. O maior doador individual pessoa física foi o empresário Fabiano Zettel, do setor financeiro, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, agora réu da maior fraude fiscal da década. Zettel também figurou entre os principais financiadores da campanha de Jair Bolsonaro (PL), estabelecendo um elo financeiro direto entre os dois projetos políticos.

Desde então, o Banco Master e seus executivos passaram a frequentar o noticiário policial e judicial, com contradições em depoimentos, acareações e apurações conduzidas por órgãos de controle e pela Polícia Federal. O caso ganhou novo fôlego nos últimos dias após novos desdobramentos investigativos, ampliando o desgaste público em torno do grupo.

Ao trazer esse histórico para o centro do debate, Gleisi desloca a discussão da abstração moral para o terreno concreto das alianças políticas e econômicas. O enquadramento mira diretamente a tentativa de Tarcísio de se apresentar como referência ética sem responder pelos vínculos que viabilizaram sua trajetória eleitoral.

Crise moral, crise fiscal e responsabilidade fiscal

Na mesma manifestação, Gleisi também contestou a narrativa fiscal adotada pelo governador. Segundo ela, quem contratou a crise fiscal foi o governo Bolsonaro, que deixou um rombo de cerca de R$ 255 bilhões para a atual gestão administrar. A ministra associa, assim, os dois eixos do discurso de Tarcísio, moral e fiscal, a um mesmo projeto político herdado do bolsonarismo.

O embate ocorre em um momento de reorganização do campo da direita e de antecipação da disputa presidencial de 2026. Embora Tarcísio reafirme publicamente a intenção de disputar a reeleição em São Paulo, sua presença constante no debate nacional e a adoção de um discurso moralizante ampliam sua exposição como ator central da sucessão pós-Bolsonaro.

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