
A Justiça do Rio de Janeiro adiou nesta quarta-feira (25) a decisão sobre o retorno da advogada argentina Agostina Páez ao seu país de origem, em um novo desdobramento do caso de injúria racial ocorrido em 14 de janeiro de 2026 em um bar de Ipanema. A indefinição ocorre após a fase final do julgamento, realizada na terça-feira (24), e mantém as medidas cautelares impostas à acusada, incluindo a retenção do passaporte e a proibição de deixar o Brasil.
A atualização marca um revés para a estratégia da defesa, que buscava autorização para que Páez aguardasse a sentença na Argentina. A possibilidade chegou a ser considerada após movimentações diplomáticas e redução do escopo da acusação, mas a decisão final foi postergada pelo juízo.
Segundo o jornal La Nación, a expectativa de retorno imediato foi frustrada após a Justiça brasileira não confirmar a liberação da advogada, mantendo a exigência de garantias financeiras e a continuidade do processo no país.
O que aconteceu e por que a decisão mudou
Agostina Páez responde por injúria racial após ofender funcionários de um bar na Rua Vinícius de Moraes, em Ipanema, durante uma discussão sobre o valor da conta. Segundo a denúncia, a advogada utilizou expressões racistas e simulou gestos de macaco contra trabalhadores do estabelecimento.
Durante a audiência de instrução, foram ouvidas sete testemunhas e realizado o interrogatório da ré. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) apresentou alegações finais pedindo a condenação e se posicionou contra a saída da acusada sem garantias de reparação às vítimas.
Embora a acusação tenha sido reduzida ao longo do processo, com possibilidade de pena alternativa e indenização, a decisão sobre a execução dessas medidas, e sobre a liberação para retorno à Argentina, ainda não foi tomada.
Disputa jurídica envolve indenização e cumprimento da pena
O ponto central do impasse está na exigência de garantias financeiras. O Ministério Público defende que a acusada só possa deixar o Brasil após assegurar o pagamento de eventual indenização às vítimas.
De acordo com informações divulgadas pela imprensa argentina, a compensação pode alcançar valores elevados, o que transformaria a pena em um modelo de reparação econômica associado a medidas alternativas.
A defesa, por sua vez, argumenta que a acusada demonstrou arrependimento, pediu desculpas às vítimas e teria condições de responder ao processo a partir da Argentina, com apoio do consulado.
Reação nas redes amplia crise e desloca foco do caso
A repercussão do caso nas redes sociais argentinas passou a incorporar manifestações que extrapolam a defesa da acusada e avançam para ataques contra brasileiros.
Entre os comentários publicados, usuários sugerem medidas de exclusão: “Vamos deportá-los quando vierem estudar de graça nas nossas universidades na Argentina…”, comenta um argentino em uma reportagem publicada pelo jornal Clarín.

Outras mensagens questionam a atuação da Justiça brasileira: “É uma loucura o que estão fazendo com essa garota”, diz outro. “O Brasil não tem problemas mais graves???”, questiona outro.


As reações assumem caráter xenofóbico ao defender a expulsão de brasileiros e deslegitimar instituições do país onde o crime ocorreu. Ao mesmo tempo, ao relativizar as ofensas raciais, contribuem para deslocar o foco do episódio que originou o processo.
Casos recentes ampliam debate sobre racismo na Argentina
O episódio ocorre em um momento de maior visibilidade de casos de discriminação no país. Também em março de 2026, uma participante do reality show “Gran Hermano”, versão argentina do Big Brother, foi expulsa após declarações racistas dentro do programa, em um caso que ganhou repercussão internacional.
A expulsão da jornalista paraguaia Carmiña Masi, anunciada ao vivo durante o programa, evidenciou a presença de discursos discriminatórios em ambientes de grande audiência e ampliou o debate público sobre racismo na sociedade argentina, com reações divididas entre condenação e relativização das falas.
A sequência de episódios, em curto intervalo de tempo, reforça um ambiente de tensão em torno do tema e amplia o alcance das discussões para além dos casos individuais.