
A investigação sobre o Banco Master deixou de ser apenas um inquérito sensível no Supremo Tribunal Federal (STF) para se tornar um catalisador de tensões institucionais com efeitos diretos sobre o sistema político. O caso, relatado pelo ministro Dias Toffoli e cercado por questionamentos sobre sua suspeição, colocou o STF sob intenso escrutínio público, provocou ruídos com o Palácio do Planalto e passou a influenciar, de maneira crescente, os cálculos eleitorais para 2026.
No centro da crise está a atuação do Supremo e a resposta de sua presidência. Em entrevista publicada nesta terça (27) ao O Globo, o ministro Edson Fachin adotou um tom firme ao ser questionado sobre eventuais irregularidades e pedidos de suspeição envolvendo Toffoli. “Quando for necessário atuar, eu não vou cruzar os braços. Doa a quem doer”, afirmou. Embora tenha evitado antecipar qualquer juízo, Fachin deixou claro que a Corte não se furtará a enfrentar o tema, caso a controvérsia avance formalmente para apreciação colegiada.
O presidente do STF também reagiu às críticas dirigidas à nota institucional divulgada em defesa da atuação do tribunal durante o recesso. Segundo Fachin, a manifestação teve como objetivo resguardar a institucionalidade e reafirmar a autonomia dos órgãos de controle. “Nada está imune à crítica, nem o Supremo, nem qualquer um de seus ministros”, disse, ao sublinhar que cabe à Polícia Federal investigar, ao Ministério Público acusar e ao Judiciário julgar, dentro dos limites constitucionais.
Ainda assim, a crise ganhou densidade política. Nos bastidores do Supremo, especialmente entre ministros que se alinham à defesa de Toffoli, cresceu a irritação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A leitura predominante é a de que o Planalto optou por se distanciar do episódio, permitindo que o desgaste recaísse exclusivamente sobre a Corte. Para esse grupo, segundo apuração da jornalista Andréia Sadi, Lula “lava as mãos” e deixa o STF exposto, apesar de recorrer ao tribunal como aliado em momentos-chave de governabilidade.
Essa percepção tem produzido um movimento de fechamento de fileiras no Supremo. A defesa de Toffoli passou a ser vista menos como um gesto de solidariedade pessoal e mais como uma estratégia de autopreservação institucional. O temor é que permitir que um ministro “exploda” politicamente, sem uma saída controlada, abra um precedente perigoso e fragilize ainda mais a Corte num ambiente já marcado por ataques e tentativas de deslegitimação.

Chegou-se a cogitar, de forma ainda embrionária, a hipótese de afastamento de Toffoli e abertura de uma nova vaga no STF, com eventual apoio do Centrão no Senado. A ideia, porém, encontra forte ceticismo. Ministros lembram que Lula ainda não conseguiu aprovar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga já existente. Abrir uma nova frente de negociação em meio a uma crise seria, na avaliação interna, politicamente temerário.
Para o presidente da República, o caso Master também exige cautela. Lula tem evitado assumir protagonismo direto na defesa de Toffoli, mas acompanha com atenção os desdobramentos. A crise no STF já transborda para o debate eleitoral e pode se converter em munição para a oposição em 2026, sobretudo no que diz respeito à relação entre os Poderes e à retórica de “freios” ao Judiciário.
Senado vira campo de batalha
Esse risco é potencializado pela centralidade crescente do Senado Federal no desenho institucional brasileiro. Questionamentos envolvendo Toffoli e também o ministro Alexandre de Moraes reacenderam, em setores da direita, a possibilidade de abertura de processos de impeachment contra integrantes do Supremo. Caso a oposição conquiste uma maioria expressiva na Casa Alta, o cenário de confronto institucional pode se intensificar logo no início de um eventual quarto mandato de Lula.
É nesse contexto que o presidente passou a reforçar, internamente, a importância estratégica da eleição para o Senado. Preocupado com a empolgação de diretórios petistas em disputar governos estaduais, Lula sinalizou que a prioridade deve ser a formação de uma bancada robusta no Congresso, especialmente no Senado. O cálculo é pragmático é que sem uma base sólida na Casa, a governabilidade a partir de 2027 estará seriamente comprometida.
Hoje, 54 das 81 cadeiras do Senado estarão em disputa em 2026. Nos cálculos do PT, seria necessário eleger entre 25 e 30 senadores para garantir uma base minimamente confortável, capaz de chegar a cerca de 45 votos com o apoio de partidos aliados e setores do Centrão. Esse número é visto como essencial para barrar iniciativas de impeachment de ministros do STF e assegurar a aprovação de indicações estratégicas do Executivo.
Lula tem se envolvido pessoalmente nas articulações. No Paraná, incentivou a candidatura de Gleisi Hoffmann ao Senado, abrindo mão de uma reeleição praticamente certa à Câmara. Em Santa Catarina, intercedeu para que Décio Lima desistisse da disputa ao governo e mirasse uma vaga no Senado. Em São Paulo, sinalizou que nomes de peso como Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Simone Tebet e Marina Silva podem ser convocados para a missão. O recado é inequívoco: o Senado é prioridade.
Do outro lado do espectro político, a oposição também leu corretamente o tabuleiro. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi o primeiro a vocalizar, de forma explícita, a centralidade da Casa Alta. “Me deem 50% da Câmara e do Senado que eu mudo o destino do Brasil”, disse em mais de uma ocasião. Mesmo fora do jogo eleitoral direto, Bolsonaro aposta na formação de uma maioria conservadora no Senado, almejando até mesmo a presidência deste último, como forma de impor limites ao Judiciário e ao Executivo.
O PL e seus aliados já preparam um bloco competitivo, com nomes de alta visibilidade e forte engajamento ideológico. Michelle Bolsonaro é cotada para o Distrito Federal; Carlos Bolsonaro se movimenta para disputar uma vaga por Santa Catarina; parlamentares como Bia Kicis, Caroline de Toni e Gustavo Gayer também estão no radar. A estratégia é transformar a eleição para o Senado em um plebiscito sobre o papel do STF e o equilíbrio entre os Poderes.
Essa disputa se explica pelas prerrogativas exclusivas do Senado, previstas no artigo 52 da Constituição. Cabe à Casa aprovar indicações para o STF e outros cargos-chave, autorizar operações financeiras externas e, sobretudo, julgar pedidos de impeachment contra ministros da Suprema Corte.
O caso Master, portanto, funciona como um ensaio geral de um embate maior. Ao expor fragilidades do STF, tensionar a relação com o Planalto e alimentar o discurso da oposição, a crise antecipa o que pode ser um dos eixos centrais da eleição de 2026. Mais do que a disputa presidencial, estará em jogo quem terá o poder de impor limites, ou ampliá-los, ao funcionamento das instituições a partir de 2027. Nesse cenário, o Senado deixa de ser coadjuvante e assume o papel de protagonista na definição dos rumos políticos do país.