
A vitória da candidata de esquerda Jeannette Jara no primeiro turno das eleições chilenas teve sabor de derrota. Com cerca de 27% dos votos válidos, apenas três pontos à frente do ultraconservador José Antonio Kast, a ex-ministra do Trabalho do governo Gabriel Boric inicia a corrida para o 2º turno em 14 de dezembro diante de um cenário adverso. As urnas revelaram um país dividido e, sobretudo, um fortalecido campo conservador.
O resultado desencadeou uma mudança imediata de tom na campanha de Jara, que apelou para o medo como estratégia eleitoral. Em seu discurso pós-votação, criticou as “soluções imaginárias” da extrema direita e fez referência direta ao comício de Kast, no qual o candidato apareceu protegido por vidros blindados. A mensagem buscou destacar o que a esquerda considera uma escalada retórica e simbólica do radicalismo no país.
Polarização amplia espaço da direita e coloca Kast em vantagem
Apesar de ter ficado em segundo lugar, Kast chega ao 2º turno com caminho pavimentado. Ele recebeu apoio imediato de figuras importantes do campo conservador, como Evelyn Matthei e Johannes Kaiser, este último associado às posições mais extremas da direita chilena, incluindo críticas ao voto feminino e defesa do regime militar. A soma dos votos de Kast, Matthei e Kaiser chega a 51%, consolidando um bloco difícil de ser alcançado pela esquerda.
A eleição foi moldada por três temas centrais: insegurança, crime organizado e imigração irregular. O país enfrenta um salto inédito na violência, já que os homicídios cresceram 140% na última década, e os sequestros, 76% desde 2021. A chegada do crime organizado, antes pouco presente no Chile, alimentou percepções de descontrole e ampliou a receptividade às propostas de Kast, que promete deportações em massa e barreiras físicas na fronteira norte.
A pressão migratória, especialmente de venezuelanos, tornou-se eixo emocional da disputa e catalisou o avanço conservador, em sintonia com movimentos recentes na região, como a ascensão de Javier Milei na Argentina.
Para Jara, o desafio é atrair eleitores moderados e enfrentar o peso institucional do adversário. Se Kast vencer, governará com a maior parte do Congresso ao seu lado. A candidata governista, por seu turno, depende de um eleitorado fragmentado para evitar que o Chile dê uma guinada definitiva à direita.