
O Chile realiza, neste domingo (16), uma das eleições mais decisivas desde a sua redemocratização. A disputa ocorre sob os efeitos acumulados do Estallido Social de 2019–2020, ocorrido há seis anos, quando milhões foram às ruas para protestar contra desigualdades estruturais, serviços públicos precários e o modelo de previdência privatizado. Um ciclo de protestos que redefiniu o mapa político do país, abriu caminho para o processo constituinte e influenciou diretamente a vitória de Gabriel Boric em 2021.
Quatro anos depois, o Chile chega às urnas dividido, com baixa confiança institucional, insegurança em alta e ritmo econômico lento, um cenário muito diferente daquele que marcou o impulso progressista do pós-protestos. A rejeição consecutiva de dois textos constitucionais (um à esquerda, outro à direita) aprofundou a sensação de impasse e alimentou a desconfiança generalizada.
Desgaste do governo Boric e o atual momento político
A administração Boric, que começou com forte expectativa de renovação, enfrenta hoje aprovação em queda, entre entre 25% e 30%, conforme pesquisas recentes do Centro de Estudios Públicos (CEP) e da Cadem. A lentidão das reformas, a dificuldade de transformar promessas em avanços concretos, a persistente percepção de insegurança e a desaceleração econômica alimentam um ambiente de fadiga política.
O momento atual é marcado pelo cansaço profundo da população com instabilidade institucional, tensões partidárias e inflação ainda acima do padrão histórico chileno. Analistas locais descrevem um eleitorado mais pragmático, menos motivado por alinhamentos ideológicos e mais preocupado com respostas rápidas a questões como criminalidade, custo de vida e capacidade de gestão do Estado.
Santiago: o centro decisivo do voto chileno
Atualmente, a Região Metropolitana de Santiago concentra a maior parcela do eleitorado do país, tradicionalmente entre 40% e 45% dos eleitores. Por isso, Santiago é considerada decisiva para qualquer candidatura presidencial.
Na capital, campanhas estruturam agendas, anúncios e estratégias de mobilização pensando especificamente no impacto, onde vivem tanto os setores mais politizados quanto aqueles mais afetados por desigualdade urbana, violência e pressão econômica. Assim, o desempenho em Santiago é, historicamente, definitivo para definir a vantagem para o segundo turno e, muitas vezes, o resultado final.
Tradição do 2º turno e expectativa consolidada
Desde a redemocratização, todas as eleições presidenciais chilenas foram decididas em segundo turno. Para o eleitorado, a volta às urnas se tornou parte natural do processo. Mais do que uma etapa eventual, é uma etapa esperada.
O primeiro turno funciona como filtro, e o segundo, como definição real do projeto de país. As campanhas, por isso, já trabalham mirando alianças e negociações previstas para a fase final. Não há expectativa real de vitória em primeiro turno para nenhum candidato.
Bastidores: fragmentação, incerteza e novo perfil eleitoral
Veículos chilenos apontam três fatores que aumentam a incerteza desta disputa: a fragmentação da direita, o desgaste da esquerda institucional e os efeitos da inscrição automática implantada em 2012. A ampliação do eleitorado, somada ao voto obrigatório, trouxe milhões de eleitores historicamente distantes da política formal, alterando o comportamento tradicional das pesquisas.
Na direita, José Antonio Kast disputa protagonismo com setores conservadores tradicionais que perderam força desde o Estallido. Na esquerda, Jeannette Jara tenta unificar um campo desgastado após fraturas internas provocadas pelo processo constituinte e pelas dificuldades do governo Boric.
Jara: continuidade social sob pressão e busca por estabilidade
Jeannette Jara, ex-ministra do Trabalho e figura histórica da militância estudantil e sindical, consolidou sua carreira articulando pautas trabalhistas e sociais. Atuou em iniciativas como a redução da jornada para 40 horas e a elevação gradual do salário mínimo.
Sua campanha tenta equilibrar a defesa das políticas sociais do governo com um discurso de pragmatismo, responsabilidade fiscal e maior atenção à segurança pública. O desafio central é reconquistar o eleitorado moderado que apoiou Boric, mas hoje demonstra insatisfação com criminalidade, custo de vida e lentidão das reformas.
Kast: segurança, ordem e retórica anti-imigratória
José Antonio Kast, fundador do Partido Republicano, disputa sua terceira eleição presidencial como principal nome da extrema direita chilena. Embora tenha origem na direita tradicional, Kast incorporou nos últimos anos um discurso libertário e ultraliberal, semelhante ao de Javier Milei na Argentina, defendendo privatizações ampliadas, redução drástica do Estado, flexibilização trabalhista e revisão de políticas sociais.
Ele também se apoia fortemente na agenda migratória, a la Trump. Em pouco mais de uma década, o Chile passou por uma transformação demográfica profunda: a população migrante saltou de cerca de 3% para aproximadamente 20%. Esse salto, somado ao aumento da criminalidade e das tensões nas fronteiras, tornou a imigração um dos temas mais sensíveis do país.
Kast defende controle migratório rígido, fechamento de fronteiras e deportações aceleradas, em linha direta com a retórica de Donald Trump nos EUA. Sua plataforma combina endurecimento penal, ultraliberalismo econômico e política migratória de tolerância zero. Seus críticos alertam para riscos institucionais e retrocessos em direitos civis; seus apoiadores o veem como resposta “eficaz” ao clima de insegurança.
Futuro em disputa: dois projetos de país
A eleição entre Jara e Kast sintetiza dois caminhos distintos. Primeiro, a continuidade social moderada com ajustes econômicos e reforço institucional; depois, uma guinada conservadora, com foco em segurança, ordem e liberalização econômica.
A viabilidade de qualquer projeto dependerá também da composição do novo Congresso, que tende a sair mais fragmentado, o que pode limitar a implementação de reformas profundas, independente do vencedor.
Além de suas fronteiras, o Chile é observado de perto por analistas regionais e mercados internacionais, dada sua influência sobre políticas migratórias, estabilidade econômica e arranjos institucionais do Cone Sul.
Independentemente do resultado, o Chile vai às urnas após seis anos de transformações políticas intensas, duas Constituintes rejeitadas e crescente desconfiança nas instituições. As eleições que começam neste domingo não definirão apenas a sucessão de Boric. Definião o próximo capítulo de um país que vive sua maior reconfiguração política desde a transição democrática.