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Yorgos Lanthimos consolida sua posição como um dos cineastas mais essenciais da atualidade com “Bugonia”, que estreia nesta quinta-feira (27) nos cinemas brasileiros. Adaptando livremente o cultuado “Save the Green Planet!” (2003), o diretor grego constrói um thriller psicológico que funciona simultaneamente como espelho quebrado da nossa crise de humanidade e retrato afiado da era da desinformação.

O filme ancora-se no confronto entre Michelle Fuller (Emma Stone), CEO de uma farmacêutica que personifica a transparência corporativa artificial, e Teddy (Jesse Plemmons), apicultor paranóico convencido de que sequestrou uma alienígena disfarçada. O que poderia ser apenas um delírio conspiratório se transforma, nas mãos de Lanthimos, em um ritual de confronto que expõe as tensões sociais contemporâneas com precisão cirúrgica.

Emma Stone entrega talvez sua atuação mais complexa desde “Pobres Criaturas” (2023), que lhe valeu o segundo Oscar, consolidando uma parceria com o diretor que já figura entre as mais potentes do cinema atual. Ela transforma Michelle em uma criatura polida e perigosa, alguém que domina a língua da empatia artificial enquanto esconde um deserto ético interior. A oscilação entre frieza e vulnerabilidade revela camadas de uma personagem que parece esconder algo a cada olhar, numa performance repleta de nuances que pode render nova indicação ao prêmio da Academia.

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Jesse Plemons, por sua vez, desaparece dentro de Teddy com entrega devastadora. Seu personagem é simultaneamente patético, assustador e trágico – um espelho perfeito da paranoia coletiva contemporânea. A exaustão física, o olhar febril e a devoção quase religiosa à própria teoria conspiratória não buscam a simpatia do público.

O roteiro de Will Tracy manipula nossa empatia de maneira profundamente incômoda. À medida que o cativeiro avança, somos convidados a oscilar entre repulsa e compreensão, presos ao mesmo porão mental onde as crenças dos personagens apodrecem lentamente. Quando Michelle adota a manipulação como ferramenta de sobrevivência, cada conversa e pausa estratégica revela uma mulher que aprendeu a dominar ambientes hostis. É nesse jogo verbal que o filme expõe a fragilidade das estruturas morais.

A dimensão quase teatral do embate verbal se torna o motor narrativo. Nesse espaço reduzido, “Bugonia” cresce em densidade, alternando momentos de humor ácido, horror psicológico e sátira social em ritmo alucinante.

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Quando a violência aflora, a narrativa ganha urgência cruel. Lanthimos não tem interesse em redimir ninguém – as escolhas encontram consequências brutais. A reta final reserva uma das reviravoltas mais desconcertantes da filmografia do diretor, reposicionando tudo com ironia, melancolia e reflexão filosófica sobre o colapso instalado quando delírio encontra impunidade.

“Bugonia” é obra sobre pânico moral, fabricação da verdade e ilusões reconfortantes que sustentam corporações e extremistas. Lanthimos ilumina os monstros internos de cada um, revelando que o maior terror reside na humanidade que insiste em sobreviver dentro do pior de nós.

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