ódio
Tânia Rêgo/Agência Brasil

Um levantamento do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop), da Fundação Getulio Vargas (FGV), identificou que ao menos 225 mil pessoas participam de 85 comunidades brasileiras no Telegram dedicadas à circulação de conteúdos misóginos e de violência de gênero. O estudo analisou sete milhões de mensagens publicadas entre setembro de 2015 e novembro de 2025.

No período entre 2019 e 2025, o volume de conteúdos cresceu cerca de 600 vezes, passando de 5.546 registros naquele ano para mais de 3,3 milhões em 2025. Os dados foram divulgados na terça-feira (25), Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Estrutura e subgrupos

A pesquisa classificou as comunidades em cinco subgrupos da chamada “machosfera”, incluindo perfis ligados a incels, redpills, grupos de guerra cultural e canais de misoginia explícita. Os pesquisadores afirmam que esses ambientes funcionam como porta de entrada para discursos supremacistas, racismo e teorias conspiratórias, com intersecção frequente com grupos extremistas.

Segundo o estudo, “os discursos misóginos aparecem frequentemente combinados com racismo e classismo, revelando um projeto identitário hierárquico”.

Dinâmica dos discursos de ódio

A coordenadora da pesquisa, Julie Ricard, afirma que os conteúdos mapeados apresentam um ciclo de autodepreciação masculina seguido pela transferência da agressividade para mulheres e outros grupos sociais. O estudo também indica que normas tradicionais de gênero são usadas como justificativa para comportamentos violentos e estratégias de hostilidade em ambientes digitais.

Parte do ecossistema mapeado envolve modelos de monetização que transformam a circulação de discursos de ódio em negócio. Entre os itens comercializados estão cursos, mentorias, infoprodutos, livros e serviços pagos que exploram inseguranças masculinas. A FGV afirma que esse mercado conecta a radicalização a fluxos financeiros sustentados por usuários e pela própria plataforma.

A dinâmica reforça, segundo o relatório, a necessidade de regulação e maior controle sobre os ambientes digitais para conter ciclos de violência e desinformação.

O estudo é assinado pelos pesquisadores Julie Ricard, Ergon Cugler, Mario Aquino Alves, Guilherme Celestino, Gabriel Rocha e Stefanny Vitória, todos vinculados ao DesinfoPop/CEAPG/FGV.

Veja também