
A oitiva conduzida pela Polícia Federal (PF) sobre o caso do Banco Master, realizada na terça-feira (30), terminou tarde da noite com a acareação entre Daniel Vorcaro, fundador da instituição, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). O confronto de versões foi decidido após a identificação de contradições relevantes nos depoimentos sobre operações financeiras bilionárias realizadas entre os dois bancos.
A investigação apura suspeitas de fraude, falsidade ideológica e irregularidades no sistema financeiro, em um caso que envolve recursos públicos, fiscalização do Banco Central e decisões judiciais no Supremo Tribunal Federal (STF).
Como foi a oitiva e por que houve acareação
Ao longo de aproximadamente sete horas, a delegada da PF Janaína Palazzo colheu depoimentos separados de Vorcaro, de Paulo Henrique Costa e do diretor do Banco Central Ailton de Aquino. As oitivas contaram com a presença de advogados, representantes da PF e de um juiz auxiliar do ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Após o depoimento de Ailton de Aquino, considerado por investigadores como detalhado, técnico e esclarecedor, o diretor do Banco Central foi dispensado da acareação. A decisão foi tomada pelo relator, com concordância da PF, por avaliação de que os pontos centrais já haviam sido esclarecidos.
A acareação ocorreu apenas entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, diante de inconsistências nas versões apresentadas sobre a origem e a natureza das operações financeiras realizadas entre o Master e o BRB.
O que a PF investiga
Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o BRB injetou cerca de R$ 16,7 bilhões no Banco Master em pouco mais de um ano, entre julho de 2024 e 3 de outubro de 2025. Parte relevante desses recursos estaria relacionada à compra de carteiras de crédito consignado.
A PF sustenta que o Banco Master teria utilizado empresas de fachada para criar créditos inexistentes, que foram vendidos ao BRB. O valor dessas operações chega a R$ 12,2 bilhões, sendo aproximadamente R$ 6,7 bilhões em contratos considerados falsos e R$ 5,5 bilhões classificados como “prêmios”, valor adicional atribuído às carteiras.
De acordo com o inquérito, o Master informou ao Banco Central que os créditos tinham origem em associações de servidores públicos da Bahia. O BRB, no entanto, apresentou outra versão à autoridade monetária, o que levou a PF a concluir que informações falsas teriam sido prestadas para tentar driblar a fiscalização.
Papel do Banco Central e desgaste na audiência
O depoimento do diretor do Banco Central foi apontado por investigadores como decisivo para fragilizar as versões apresentadas por Vorcaro e pelo ex-presidente do BRB. A avaliação interna é de que as explicações técnicas do BC reforçaram a leitura de que houve tentativa de mascarar operações.
A audiência também foi marcada por tensão institucional. Houve desentendimento entre a delegada da PF e o juiz auxiliar do STF sobre uma lista de perguntas encaminhadas por Dias Toffoli a Daniel Vorcaro. A delegada se recusou a fazer os questionamentos, que acabaram sendo formulados pelo próprio juiz.
Situação de Vorcaro e posição sobre delação
Daniel Vorcaro foi preso em novembro, por ordem da Justiça Federal de Brasília, e solto dias depois por decisão do TRF-1. Atualmente, ele cumpre medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica.
Durante a oitiva, segundo relatos de investigadores, Vorcaro demonstrou resistência à possibilidade de firmar um acordo de delação premiada, sinalizando que pretende manter sua estratégia de defesa sem cooperação formal com as autoridades.
O que ficou claro e o que ainda falta esclarecer
A oitiva reforçou, na avaliação da PF e do MPF, que há divergências estruturais entre as versões do Banco Master e do BRB sobre as operações investigadas. Também ficou evidenciado o papel central da fiscalização do Banco Central no mapeamento das inconsistências.
Ainda permanecem em aberto questões como o grau de responsabilidade individual de executivos e gestores, a eventual participação de terceiros nas operações e os desdobramentos penais e cíveis das transações sob suspeita.
Próximos passos
O inquérito tramita sob sigilo no STF, e desde o início de dezembro qualquer diligência ou medida investigativa depende de autorização do ministro Dias Toffoli, por decisão do próprio relator.
Com a acareação concluída, a PF deve consolidar os depoimentos e encaminhar novos relatórios ao STF e ao MPF. Eventuais avanços, como novas quebras de sigilo, indiciamentos ou pedidos de prisão, dependerão da análise judicial.