Bruno Peres/Agência Brasil

A Conferência do Clima da ONU (COP30), realizada em Belém, se transformou em palco de disputas políticas e diplomáticas em torno do tema mais espinhoso da agenda ambiental: o fim dos combustíveis fósseis. O embate envolve interesses econômicos, estratégias eleitorais e disputas de protagonismo entre países latino-americanos e petroleiros.

Um dos focos de tensão é a “Declaração de Belém sobre Combustíveis Fósseis”, documento que será lançado na próxima segunda-feira (17) por iniciativa da Colômbia. Segundo apuração da colunista Ana Carolina Amaral, do UOL, o texto circula entre delegações convidando mais de 50 países a assinarem o compromisso. O gesto foi visto como uma provocação à presidência brasileira da COP, já que parte do debate sobre o tema tem sido conduzida fora dos espaços oficiais da conferência.

A iniciativa remete a um episódio ocorrido na Cúpula da Amazônia, em 2023, quando o presidente colombiano Gustavo Petro criticou publicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por não defender o fim imediato da exploração de petróleo, chamando a expansão de fósseis de “negacionismo de esquerda”. Agora, o tom é mais conciliador. A carta colombiana reconhece o discurso de Lula na abertura da COP30, em que o brasileiro admitiu contradições e defendeu a criação de um “mapa do caminho” para reduzir a dependência global de petróleo, carvão e gás.

Apesar do apoio retórico, observadores avaliam que o gesto colombiano tem motivações eleitorais. Petro deve sediar em abril uma conferência sobre o tema, um mês antes das eleições presidenciais no país. A movimentação, segundo diplomatas, visa fortalecer sua imagem de liderança ambiental. Ainda assim, o texto desagradou até aliados da Colômbia, que consideraram a declaração moderada demais em relação à campanha global pelo Tratado da Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis.

Resistência árabe

Enquanto isso, outro impasse ganha força. A oposição da Arábia Saudita à inclusão de novas metas no acordo final da COP. De acordo com reportagem do G1, o país — um dos maiores exportadores de petróleo do mundo — vem bloqueando qualquer tentativa de definir um plano prático para abandonar os combustíveis fósseis. Representantes sauditas afirmaram nas rodadas de negociação que as discussões devem ocorrer “sem novas metas” e “sem decisões que prejudiquem outras agendas”.

A resistência não é nova. Desde a COP28, em Dubai, a Arábia Saudita lidera movimentos para impedir menções diretas aos fósseis nos textos oficiais. Agora, o país volta a adotar a mesma estratégia, gerando receio entre ambientalistas de que o encontro em Belém termine sem avanços concretos.

O desafio, portanto, é político e financeiro. Países em desenvolvimento, liderados pelo G-77 e China, exigem garantias de financiamento antes de assumir novos compromissos. Se Lula conseguir articular um acordo que una ambição climática e justiça econômica, a COP30 poderá marcar o início de uma transição energética real. Caso contrário, o encontro corre o risco de se encerrar com mais discursos do que resultados.

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