
A tensão entre a Casa Branca e o Federal Reserve (FED) entrou em um novo patamar nesta segunda-feira (12) após o presidente da instituição, Jerome Powell, reconhecer publicamente que o Banco Central dos Estados Unidos (EUA) sofre pressões políticas diretas para alterar sua política de juros. A declaração, rara na história recente do país, escancarou um conflito que vinha se acumulando nos bastidores desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump.
A crise não se resume a divergências técnicas sobre inflação ou crescimento econômico. O que está em jogo é o papel do Federal Reserve como instituição independente, um dos pilares do sistema econômico americano desde os anos 1950, em um contexto de forte polarização política e aproximação do calendário eleitoral.
O que aconteceu
Nas últimas semanas, Trump intensificou críticas públicas ao FED, acusando o Banco Central de manter juros elevados por “motivações políticas” e de agir contra os interesses do governo. Em declarações e postagens, o presidente afirmou que a política monetária estaria “estrangulando o crescimento” e prejudicando a competitividade dos Estados Unidos.
Diferentemente de episódios anteriores, as críticas não ficaram restritas ao discurso. Segundo relatos de veículos americanos, assessores da Casa Branca passaram a pressionar diretamente membros do FED para acelerar cortes de juros e alinhar decisões econômicas às prioridades do Executivo.
A reação veio quando Powell decidiu tornar pública a existência dessa pressão. Ao fazê-lo, rompeu uma tradição histórica de evitar confrontos diretos com o governo, justamente para preservar a imagem de neutralidade técnica do banco central.
O que está por trás do conflito
O embate ocorre em um cenário econômico delicado. A inflação nos EUA vem desacelerando, mas ainda não retornou plenamente à meta de 2%. Ao mesmo tempo, indicadores de atividade mostram sinais de moderação do crescimento, o que alimenta o debate sobre quando e quanto o Fed deve cortar os juros.
Para Trump, juros mais baixos são estratégicos. Eles estimulam consumo, crédito e investimentos, criando um ambiente econômico mais favorável em ano pré-eleitoral. O presidente vê a política monetária como instrumento legítimo para impulsionar crescimento e reforçar sua narrativa econômica.
Já o Federal Reserve opera com outro horizonte. Powell e seus colegas defendem que decisões precipitadas podem reacender pressões inflacionárias, minar a credibilidade da instituição e provocar instabilidade nos mercados financeiros globais. A prioridade declarada do Fed segue sendo o controle da inflação, mesmo sob custo político.
Por que a fala de Powell é tão incomum
Presidentes do Federal Reserve tradicionalmente evitam comentar pressões políticas, mesmo quando elas existem. A escolha de Powell por tornar o conflito explícito foi interpretada, por analistas americanos, como sinal de que os limites institucionais estavam sendo testados.
Ex-dirigentes do FED apontaram que a declaração funciona também como um alerta ao Congresso, aos mercados e à comunidade internacional: a independência do banco central está sob risco.
Após a fala de Powell, a Casa Branca tentou minimizar o episódio, afirmando que o governo apenas expressa “preocupações legítimas” sobre crescimento e emprego. Ainda assim, aliados de Trump voltaram a defender mudanças estruturais no Fed, incluindo maior controle do Executivo sobre decisões monetárias.
Economistas ouvidos pela imprensa americana alertam que esse tipo de disputa pode gerar efeitos duradouros. Caso o Federal Reserve passe a ser percebido como politicamente subordinado, decisões futuras tendem a perder eficácia, elevando a volatilidade do dólar, dos juros globais e da confiança internacional na economia dos EUA.
Mais do que um desacordo sobre juros, a crise expõe um choque entre dois modelos de poder: de um lado, a tradição tecnocrática de instituições independentes; de outro, uma visão presidencial que busca submeter decisões econômicas estratégicas à lógica política imediata.