
O Critics Choice Awards costuma ocupar um lugar estratégico no calendário de Hollywood. Tradicionalmente visto como um dos primeiros grandes termômetros da temporada, o prêmio concedido por mais de 500 críticos e jornalistas de cinema e televisão dos Estados Unidos e do Canadá inaugura oficialmente o ciclo que culmina no Oscar. A cerimônia deste ano, a 31ª da história, reforçou esse papel ambíguo: ao mesmo tempo em que sinaliza tendências, também lembra que a corrida por estatuetas está longe de ser linear. Como ironizou a apresentadora Chelsea Handler em seu monólogo de abertura, quem vence cedo pode se acostumar a subir ao palco, mas reviravoltas seguem sendo parte essencial desse jogo.
Os resultados desta edição confirmaram tanto a previsibilidade quanto a diversidade do prêmio. Houve uma distribuição relativamente equilibrada entre os títulos mais lembrados, evitando a concentração excessiva em um único filme, apesar do amplo favoritismo de algumas produções. Vitórias em categorias de atuação para nomes como Timothée Chalamet (“Marty Supreme”) e Jessie Buckley (“Hamnet”), além do reconhecimento técnico a filmes de grande porte, reforçaram a capacidade do Critics Choice de refletir consensos críticos formados ao longo do ano. Ainda assim, como a própria história da premiação demonstra, acertar no Critics não garante destino selado no Oscar, especialmente diante do peso posterior dos sindicatos e das campanhas milionárias que se intensificam nas semanas seguintes.
Nesse contexto, a vitória de “O Agente Secreto” como melhor filme internacional merece atenção especial. O prêmio representa um reconhecimento relevante para a produção e reforça sua visibilidade num mercado historicamente resistente a obras fora do eixo anglófono. Ao mesmo tempo, o fato de Wagner Moura não ter sido premiado em suas categorias — nem no cinema, nem na televisão — não altera de forma decisiva o panorama da temporada. O Critics Choice, apesar de influente, carrega um viés marcadamente doméstico, o que frequentemente limita o espaço para atores e filmes estrangeiros. Para produções internacionais, a consagração nesse palco funciona menos como garantia e mais como impulso simbólico, capaz de fortalecer campanhas futuras e ampliar a circulação do filme entre votantes da indústria.
Se houve um consenso claro na noite, ele atende pelo nome de “Uma Batalha Após a Outra”, novo trabalho de Paul Thomas Anderson. O filme confirmou no Critics Choice uma sequência praticamente impecável no circuito de críticos, conquistando os prêmios de melhor filme, direção e roteiro adaptado. Trata-se de um desempenho raro, que reforça seu status de principal favorito ao Oscar neste momento da corrida. Mais do que os troféus em si, pesa a narrativa em torno de Anderson: um cineasta amplamente respeitado, com múltiplas indicações anteriores e ainda sem a consagração máxima da Academia. Esse histórico, somado ao entusiasmo crítico e ao apoio crescente da indústria, coloca o longa em posição privilegiada à medida que os prêmios dos sindicatos começam a ser anunciados.
A temporada, contudo, ainda está aberta. O Critics Choice sinaliza caminhos, mas não dita o desfecho. Entre consensos críticos, estratégias de campanha e humores mutáveis do eleitorado da Academia, o que se desenha é menos uma linha reta do que um campo de disputas.