Fernando Frazão/Agência Brasil

Um despacho do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), está na mira da Polícia Federal e é considerado a primeira evidência do envolvimento do chefe do Executivo fluminense na investigação sobre os tentáculos do Comando Vermelho dentro do Palácio Guanabara.

O ato, assinado por Castro de última hora, obrigou a publicação de uma edição extraordinária do Diário Oficial do Estado em 3 de setembro, na tarde em que o ex-deputado TH Joias havia sido preso pela PF por suspeita de lavagem de dinheiro, compra de armas e drones e relações pessoais com chefes da facção no estado.

Na ocasião, o governador exonerava às pressas o então secretário estadual de Esporte e Lazer, Rafael Picciani (MDB), filho do falecido político Jorge Picciani, preso pela PF quando presidia a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A manobra tinha como objetivo forçar diplomaticamente a saída de TH Joias do cargo, evitando que a Alerj votasse sobre a manutenção ou relaxamento da prisão, como determinam as regras estaduais.

TH Joias era o segundo suplente do partido. Com a morte do deputado Otoni de Paula Pai em maio do ano passado, uma vaga foi criada no Parlamento. Rafael Picciani, primeiro suplente, decidiu não assumir e migrou para o secretariado de Castro, abrindo caminho para TH. Com o retorno de Picciani, o deputado preso automaticamente perderia seu assento, sem necessidade de votação sobre sua prisão.

O movimento é visto como tentativa de driblar processo político que poderia expor a Casa de duas maneiras: aprovar medida impopular tirando da prisão parlamentar com ligação ao Comando Vermelho, ou manter a prisão e romper com o braço da facção dentro do Legislativo.

Na decisão que determinou a prisão do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, na quarta-feira (3), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sugere que todo o trâmite endossado por Castro tenha relação com a necessidade de garantir votos para 2026.

Moraes classifica o despacho como “célere manobra regimental” que visava fazer “controle de danos” desvinculando a imagem da Alerj de TH Joias. Em segundo momento, a estratégia seria manter “o vínculo desses agentes políticos com o Comando Vermelho, facção responsável pelo maior controle territorial do Estado, o que se traduz em milhões de votos no pleito eleitoral que se avizinha”.

O ministro determinou ao governo do Rio o fornecimento de todas as informações de acesso aos sistemas oficiais referentes à exoneração de Picciani, com horários, usuários responsáveis e logs de acesso, além dos dados sobre o pedido de criação da edição extraordinária do Diário Oficial.

Veja também