
O The New York Times publicou nesta segunda-feira (24) o artigo “The New Brazil Defied Trump and Won” — traduzido como “O Brasil desafiou Trump e venceu”. O texto, assinado por Jack Nicas, faz uma análise abertamente política do episódio que levou Jair Bolsonaro à prisão e afirma que a reação das instituições brasileiras neutralizou o esforço de Donald Trump para influenciar o rumo do caso.
Segundo o jornal, Trump adotou uma estratégia incomum para pressionar um governo estrangeiro em defesa de um aliado político. Em julho, enviou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo que as acusações contra Bolsonaro fossem descartadas. Em seguida, elevou tarifas sobre carne, café e outros produtos brasileiros e sancionou um ministro do Supremo Tribunal Federal. Para o NYT, tratou-se de uma tentativa explícita de interferência em um processo que se tornou o mais sensível da política brasileira desde a redemocratização.
O artigo sustenta que o governo Lula não cedeu e que as instituições brasileiras seguiram seus próprios critérios, independentemente da pressão norte-americana. Na avaliação do NYT, o episódio consolidou a posição política de Lula perante Washington, ao demonstrar que o país não alteraria decisões internas por causa de interesses externos, mesmo que representados pela maior potência do mundo.
A reviravolta também teve custo político para Trump. O jornal lembra que o republicano investiu capital diplomático e econômico na defesa de Bolsonaro e recuou depois de constatar que sua intervenção não produziria efeitos. Cinco meses após o início da crise, Bolsonaro iniciou o cumprimento de pena de 27 anos e Trump retirou parte das tarifas impostas ao Brasil, após uma reunião em outubro na qual buscou recompor o diálogo com Lula. Segundo o NYT, esse movimento marcou “a admissão de derrota”.
O texto também cita avaliações de analistas segundo as quais a pressão de Washington pode ter reforçado a posição do Supremo Tribunal Federal no julgamento. O jornal destaca ainda que Eduardo Bolsonaro passou a ser investigado por contatos feitos com autoridades norte-americanas enquanto buscava apoio político para o pai.
A reportagem descreve, de forma contextualizada, o episódio que levou à prisão imediata de Bolsonaro no sábado (22), quando autoridades afirmam que ele tentou danificar a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda. Para o ministro Alexandre de Moraes, o gesto representou risco de fuga, dado que Bolsonaro mora próximo à Embaixada dos Estados Unidos.
O NYT observa que, mesmo após a condenação, a Casa Branca não levou adiante as retaliações anunciadas inicialmente. Em vez disso, Trump passou a adotar uma postura distinta em relação ao governo brasileiro e afirmou ter “boa química” com Lula. A remoção das tarifas sobre carne e café foi interpretada pelo jornal como parte da reacomodação política entre os dois países. Mesmo assim, permanecem válidas as sanções impostas ao ministro Alexandre de Moraes, cuja atuação segue em debate nos EUA.
Questionado no domingo sobre a fala de Trump, Lula respondeu que “os Estados Unidos precisam entender que o Brasil é um país soberano”, frase destacada pelo jornal como uma síntese da leitura política brasileira sobre a crise diplomática do período.