
Uma campanha publicitária das sandálias Havaianas, estrelada pela atriz Fernanda Torres, tornou-se o mais recente foco da polarização política no Brasil. A frase “eu não quero que você comece o ano com o pé direito”, dita pela atriz em tom bem-humorado, foi suficiente para desencadear uma campanha de boicote articulada por setores da extrema-direita nas redes sociais às vésperas do Natal.
Na peça, Fernanda afirma não ter “nada contra a sorte”, mas sugere que os consumidores iniciem o ano “com os dois pés”, numa alusão direta ao produto. A referência, porém, foi interpretada por apoiadores do bolsonarismo como uma provocação ideológica. Desde o último fim de semana, nomes de destaque do campo conservador passaram a incentivar publicamente a rejeição à marca.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), atualmente fora do mandato, divulgou um vídeo jogando suas Havaianas no lixo e lamentando o que classificou como a perda de um “símbolo nacional”. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) adaptou um antigo slogan da empresa ao escrever que “Havaianas, nem todo mundo agora vai usar”. Já o empresário Luciano Hang, dono da rede Havan, publicou uma foto usando sandálias da marca Ipanema, concorrente direta, incentivando seguidores a fazerem o mesmo. As lojas Havan, entretanto, continuam comercializando Havaianas em seu site.
A mobilização ganhou força com vídeos de influenciadores destruindo os calçados. A influenciadora Ally Camargo viralizou ao descartar todas as sandálias da marca que tinha em casa, repetindo o gesto de Eduardo Bolsonaro. Como efeito colateral, a Ipanema passou a ser promovida como alternativa às chamadas “sandálias woke”. Desde domingo, o número de seguidores da marca no Instagram quase dobrou, ultrapassando 900 mil, impulsionando uma resposta rápida de marketing com uma campanha de ocasião.

A ofensiva também gerou reação no campo progressista. A deputada Duda Salabert (PDT-MG) alertou para o impacto sobre trabalhadores, lembrando que a fábrica da Havaianas em Montes Claros emprega milhares de pessoas. Já a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) respondeu com ironia, associando a rejeição ao desconforto com símbolos de liberdade.
Pertencente ao grupo Alpargatas, controlado pela holding Itaúsa, a Havaianas atravessa um momento de forte projeção internacional. Em novembro, um de seus modelos liderou o ranking global do Lyst Index, e a marca conta com nomes como Gigi Hadid e Jungkook entre seus embaixadores informais. Ainda assim, no Brasil, uma simples sandália voltou a se tornar campo de batalha política.