
Dois feminicídios e uma tentativa de assassinato contra mulheres registrados em menos de 24 horas na Grande São Paulo, na segunda-feira (23), ampliaram a pressão sobre o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e reacenderam o debate sobre a efetividade das políticas estaduais de prevenção à violência de gênero. Os casos ocorreram na zona norte e na zona leste da capital paulista e no município de Itapecerica da Serra, com três homens presos.
Na zona norte, uma jovem de 22 anos chegou morta a um hospital com sinais de agressão física e múltiplos hematomas. O homem de 36 anos que a levou até a unidade foi preso em flagrante por feminicídio e encaminhado ao 73º Distrito Policial, no Jaçanã. No veículo do suspeito, policiais encontraram um galão de gasolina e vestígios de sangue, além de apreenderem o celular para perícia. A prisão foi convertida em preventiva, e exames foram requisitados ao Instituto Médico Legal (IML) e ao Instituto de Criminalística.
Horas depois, em Itapecerica da Serra, guardas civis municipais encontraram uma jovem de 20 anos morta dentro de casa após serem acionados para uma ocorrência de violência doméstica. O homem de 25 anos foi localizado, confessou o crime e permaneceu preso à disposição da Justiça. Ainda na noite de segunda-feira (23), uma jovem de 18 anos foi esfaqueada na zona leste da capital paulista em um caso registrado como tentativa de feminicídio na 8ª Delegacia de Defesa da Mulher, em São Mateus.
Recordes recentes e trajetória de alta
Os novos episódios ocorrem em um contexto de aumento consistente dos feminicídios em São Paulo. O estado encerrou 2025 com o maior número de assassinatos de mulheres por razões de gênero desde o início da série histórica, em 2018. Foram 266 vítimas ao longo do ano, crescimento superior a 8% em relação a 2024, quando houve 246 casos. Na capital paulista, o avanço foi ainda mais acentuado, com 60 feminicídios registrados em 2025, contra 49 no ano anterior.
A evolução dos dados revela uma tendência de alta contínua ao longo dos últimos anos. Em 2018, primeiro ano da série histórica, foram registrados 136 casos. Após oscilações durante a pandemia, os números voltaram a crescer de forma consistente, alcançando os dois anos mais letais justamente sob a atual gestão estadual.
Subexecução de recursos e críticas à gestão estadual
O aumento dos feminicídios ocorre em paralelo a críticas sobre a execução das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Em 2025, o governo paulista autorizou R$ 10 milhões para ações específicas de enfrentamento à violência de gênero, mas apenas cerca de R$ 2,5 milhões foram efetivamente empenhados. Para especialistas e parlamentares, a subexecução limita a ampliação da rede de atendimento, o monitoramento de medidas protetivas e a capacitação de agentes públicos.
A proposta orçamentária enviada à Assembleia Legislativa para 2026 prevê ainda redução significativa nos recursos destinados à Secretaria de Políticas para a Mulher, o que intensificou questionamentos sobre a prioridade dada ao tema. O cenário levou à apresentação de representações ao Ministério Público Federal pedindo apuração sobre eventual omissão estatal diante do aumento dos casos.
Estrutura existente e limites da política atual
O governo estadual aponta medidas como delegacias especializadas, tornozeleiras eletrônicas para agressores e o aplicativo SP Mulher Segura como parte da estratégia de enfrentamento à violência doméstica. Apesar disso, avaliações técnicas indicam que parte das Delegacias de Defesa da Mulher não funciona em regime integral, e que a eficácia das políticas depende da integração entre segurança pública, assistência social e sistema de justiça.
A expansão de programas como Casas da Mulher Paulista e atendimentos digitais ampliou canais de denúncia, mas especialistas afirmam que essas iniciativas não substituem políticas preventivas em larga escala nem garantem resposta rápida em situações de risco iminente.
Debate político e responsabilidade institucional
A sequência de feminicídios em um único dia reforçou críticas à condução da política de segurança pública sob o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Analistas apontam que o estado possui a maior estrutura administrativa e policial do país, o que desloca o debate da falta de instrumentos legais para a capacidade de execução das políticas existentes.
Dados nacionais indicam que o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025, com 1.518 vítimas, média de quatro mortes por dia. Em São Paulo, onde se concentram mais de cem homens procurados por crimes de feminicídio, especialistas afirmam que a combinação entre aumento da violência, subexecução orçamentária e limitações na rede de proteção exige respostas estruturais mais amplas.
Os três casos registrados na segunda-feira (23) seguem sob investigação das autoridades policiais, enquanto o avanço dos índices mantém o tema no centro do debate público sobre segurança, políticas sociais e proteção às mulheres no estado mais populoso do país.