
A queda de braço entre o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o deputado federal Arthur Lira (PP-AL) em torno do projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil transcende a paternidade da proposta. Por trás da disputa está um embate eleitoral inédito que os dois adversários históricos devem travar nas urnas de Alagoas em 2026.
Em jogada de olho na pré-campanha, Renan resgatou projeto de 2019 do Senado e conseguiu aprová-lo às pressas na Comissão de Assuntos Econômicos, tentando “furar” o texto relatado por Lira na Câmara, travado por outras votações como a PEC da Blindagem. Simultaneamente, em acordo com o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB), Lira anunciou que o projeto original da Câmara será votado na quarta-feira (1º), tornando o esforço de Renan praticamente inócuo.
O interesse popular é evidente: ambas propostas devem beneficiar 16 milhões de brasileiros. Renan usou redes sociais para propagandear a aprovação e alfinetar a Câmara: “O cronograma do IR na Câmara teve gaveta de 7 meses e blindagem BBB (bets, bilionários e bancos)”. Lira respondeu sem citar nomes: “É reprovável que alguns oportunistas queiram fazer politicagem com o projeto de isenção do IR”.
Cenário eleitoral complexo
Renan e Arthur são pré-candidatos às duas vagas ao Senado de Alagoas e podem vencer juntos, mas ambos sabem que a eleição será difícil. Pesquisa Real Time Big Data aponta Renan à frente em seis cenários, mas com ressalva: quando o prefeito de Maceió, JHC (PL), entra na disputa, as posições mudam.
A entrada de JHC é incerta. Ele teria acordo de não sair candidato em 2026 em troca da indicação de sua tia Marluce Caldas ao STJ, concretizada em julho. Mas JHC nunca confirmou esse acordo e poderia rompê-lo. Aliados dizem que disputará o governo estadual, cenário em que aparece em segundo lugar, atrás do ministro Renan Filho (MDB).
O prefeito tem acordo conhecido com Lira e com o vice Rodrigo Cunha (Podemos), que renunciou ao Senado cedendo vaga à mãe de JHC. Em troca, receberia a cadeira de prefeito em abril de 2026. Com Arthur, o acordo prevê dobradinha majoritária.
Nos bastidores, fala-se que Lira está decidido a disputar o Senado, sem recuar para reeleição na Câmara. Para seu lugar, deve lançar o filho Álvaro Lira, de 18 anos, atual gestor administrativo da Prefeitura de Barra de São Miguel.
Fragilidade política crescente
Articulações de Lula e do PT em Alagoas vêm fortalecendo adversários de Lira, especialmente o MDB. Pesquisas apontam Renan na liderança, seguido por Davi Davino (Republicanos) e Alfredo Gaspar (União-AL), com Lira apenas em quarto lugar.
Lira tenta neutralidade entre Planalto e oposição, buscando apoio tanto do governo quanto do bolsonarismo. Mantém interlocução com o governo em pautas econômicas, mas também se alinhou ao campo bolsonarista na PEC da Blindagem, expondo sua fragilidade política estadual.
Apesar das especulações sobre eventual retorno à Câmara e nova articulação para presidência da Casa, Lira nega: “Sou pré-candidato ao Senado. Davi Davino e Alfredo são aliados, mas não há espaço para que todos concorram ao mesmo tempo”. Aliados reconhecem, porém, que a falta de espaço em chapa competitiva pode obrigá-lo a rever planos.
Com o PP anunciando saída do governo Lula, Lira manterá comando de cargos estratégicos como CBTU, CODEVASF, INCRA e Porto em Alagoas, para desespero de Calheiros. Seu projeto ao Senado segue em compasso de espera, marcado pela incerteza sobre até onde conseguirá avançar num cenário cada vez mais hostil.