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Pelo menos cinco países da América Latina realizam eleições presidenciais em 2026, em um calendário que inclui Brasil, Colômbia, Costa Rica, Peru e Haiti. O ciclo ocorre em meio a forte polarização política, desgaste de governos, descrédito institucional e uma pergunta que atravessa o subcontinente: até que ponto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode influenciar os resultados eleitorais da região.

A questão ganhou centralidade após a atuação direta de Trump em processos eleitorais recentes na América Latina, com declarações públicas, pressão diplomática e uso reiterado de instrumentos econômicos como forma de sinalizar apoio a forças políticas alinhadas à direita. Analistas internacionais avaliam que esse comportamento rompe padrões tradicionais da política externa norte-americana e recoloca os Estados Unidos como ator direto em disputas eleitorais regionais.

As eleições de 2026, portanto, não ocorrem em terreno neutro. Em praticamente todos os países envolvidos, há um pano de fundo comum de crescimento econômico insuficiente, insegurança pública, fadiga democrática e baixa confiança nas instituições. Esse ambiente amplia a sensibilidade dos processos eleitorais a pressões externas e transforma o posicionamento em relação a Washington em um elemento simbólico relevante da disputa política interna.

Um ciclo eleitoral atravessado por crises internas

O desgaste institucional observado na região cria espaço tanto para discursos de ruptura quanto para a instrumentalização de atores externos como símbolo de ordem, estabilidade ou ameaça. A influência dos Estados Unidos, nesse contexto, não se manifesta apenas por endossos diretos, mas pela forma como líderes e partidos locais se posicionam a favor ou contra Washington como parte de sua identidade eleitoral.

Ao longo de 2025, Trump deixou claro que não pretende adotar uma postura discreta em relação à América Latina. Ao contrário, sua estratégia tem sido a de assumir publicamente preferências políticas e utilizar o peso econômico dos EUA como instrumento de pressão. O impacto dessa atuação, no entanto, varia conforme a solidez institucional e o histórico político de cada país.

Brasil: soberania como ativo eleitoral

No Brasil, a eleição presidencial ocorre em 4 de outubro de 2026, com eventual segundo turno marcado para 25 de outubro. O pleito se dá sob intensa polarização, mas com um elemento novo em relação a ciclos anteriores: a direita chega fragmentada após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como favorito inicial, sustentado por uma base eleitoral resiliente e pela ausência de um nome unificador no campo conservador.

Nesse cenário, analistas avaliam que uma intervenção direta de Trump tende a produzir efeito inverso ao pretendido. O confronto entre Lula e Trump em episódios recentes reforçou o discurso de soberania nacional e permitiu ao governo brasileiro se apresentar como defensor da autonomia institucional do país. Qualquer tentativa explícita de ingerência externa tende a ser explorada eleitoralmente pelo campo governista.

A influência dos Estados Unidos, portanto, é limitada não por falta de peso político ou econômico, mas pelo risco concreto de gerar rejeição e fortalecer narrativas nacionalistas.

Colômbia: sucessão aberta e vulnerabilidade estrutural

A Colômbia inicia seu ciclo eleitoral com eleições legislativas em 8 de março de 2026. A primeira volta da eleição presidencial está marcada para 31 de maio, com eventual segundo turno previsto para 21 de junho. O presidente Gustavo Petro está impedido de disputar a reeleição, mas permanece como ator central em um cenário de sucessão aberta, marcado por uma esquerda fragmentada e por uma oposição em processo de reorganização.

A relação histórica entre Colômbia e Estados Unidos — especialmente nas áreas de segurança, combate ao narcotráfico e cooperação militar — faz com que discursos vindos de Washington tenham maior ressonância no debate interno. Ao mesmo tempo, pesquisas indicam que o eleitorado colombiano valoriza boas relações com os EUA, mas rejeita interferência explícita em processos eleitorais nacionais.

Esse equilíbrio torna a Colômbia um terreno ambíguo: fértil para influência indireta, por meio de sinais diplomáticos e econômicos, mas arriscado para apoios abertos, que podem provocar reação adversa.

Peru: fragmentação como regra, imprevisibilidade como norma

No Peru, as eleições presidenciais e legislativas estão marcadas para 2 de abril de 2026, com eventual segundo turno presidencial em 7 de junho. O pleito ocorre em um sistema político profundamente fragmentado, com dezenas de candidaturas e baixa confiança da população na classe política. A experiência recente indica que o eleitorado peruano tende a decidir tardiamente, muitas vezes em favor de figuras pouco conhecidas do grande público.

Nesse contexto, a influência externa não se dá por endossos diretos, mas pela circulação de discursos associados à ordem, ao combate ao crime e à estabilidade econômica. Candidatos conservadores podem tentar se associar simbolicamente a Washington, mas o efeito tende a ser difuso, instável e altamente imprevisível.

Analistas veem o Peru menos como um alvo direto da atuação de Trump e mais como um espaço onde narrativas globais se misturam ao caos interno e à desilusão com o sistema político.

Costa Rica: estabilidade institucional como barreira

A Costa Rica abre o calendário eleitoral regional. As eleições presidenciais e legislativas estão marcadas para 1º de fevereiro de 2026, com eventual segundo turno previsto para 5 de abril. O processo ocorre em um ambiente institucional mais sólido do que o observado na maior parte da região, apesar de tensões recentes envolvendo o presidente cessante.

Nesse cenário, a influência externa tende a ser marginal. O eleitorado costarriquenho responde prioritariamente a temas domésticos, como economia e governabilidade, e a interferência de atores estrangeiros costuma ser mal recebida, limitando seu impacto eleitoral.

Haiti: eleições condicionadas à sobrevivência institucional

O Haiti tenta realizar eleições gerais em 30 de agosto de 2026, com eventual segundo turno presidencial previsto para 6 de dezembro. O pleito ocorre após quase uma década sem eleições nacionais e depende da criação de condições mínimas de segurança em um território amplamente controlado por facções armadas.

Nesse contexto, a influência externa não é propriamente eleitoral, mas estrutural. O papel dos Estados Unidos e da comunidade internacional está menos ligado a preferências ideológicas e mais à viabilidade do próprio processo democrático e à contenção da crise humanitária.

O fator Trump: poder real, efeito incerto

O ciclo eleitoral de 2026 funcionará como um teste dos limites contemporâneos da influência externa na América Latina. A atuação de Trump tende menos a definir resultados de forma direta e mais a intensificar disputas simbólicas já existentes, aprofundando polarizações internas e reposicionando os Estados Unidos como ator político explícito na região.

Em democracias mais consolidadas, essa estratégia pode produzir efeito reverso. Em contextos mais frágeis, pode ampliar tensões e incertezas. Em todos os casos, o impacto dependerá menos da força de Washington e mais das condições internas de cada país.

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