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A edição de 2026 do Grammy Awards, maior premiação da música nos EUA, acontece neste domingo (1º), em Los Angeles, cercada por expectativas elevadas e um grau incomum de imprevisibilidade. No Brasil, a cerimônia será transmitida ao vivo pelo canal TNT e pela HBO Max, a partir das 21h15. Em jogo estão não apenas os principais prêmios da indústria fonográfica, mas também sinais claros de como a Academia de música vem reposicionando seus critérios em um cenário musical cada vez mais globalizado.

Desde 2019, quando passou por reformas internas após denúncias de falta de diversidade e transparência, o Grammy se tornou mais difícil de decifrar. Mais de 60% do quadro de votantes foi renovado, diluindo padrões históricos e abrindo espaço para novas narrativas. Ainda assim, três nomes despontam como protagonistas da noite: Kendrick Lamar, Lady Gaga e Bad Bunny.

Kendrick Lamar lidera com nove indicações, incluindo as três categorias principais: Álbum do Ano, Canção do Ano e Gravação do Ano. Seu disco “GNX” teve presença cultural sustentada ao longo do ano, extrapolando a música e dialogando com esporte, linguagem cotidiana e identidade urbana americana. No entanto, o rapper foi o grande vencedor da edição passada, impulsionado pelo impacto de “Not Like Us”, o que levanta dúvidas sobre a disposição dos votantes em premiá-lo novamente de forma tão contundente.

Lady Gaga aparece logo atrás, com sete indicações. Apesar de já acumular 14 Grammys, a cantora nunca venceu em nenhuma das três categorias centrais da premiação. “Mayhem”, seu novo álbum, marca um retorno ao pop performático e visualmente provocador que definiu sua ascensão. Para muitos analistas, uma eventual vitória de Gaga teria menos a ver com o disco em si e mais com uma lógica de reconhecimento tardio: a consagração institucional de uma artista que moldou o pop contemporâneo, mas nunca foi premiada nos principais campos.

Bad Bunny, por sua vez, representa talvez o desafio mais direto à tradição do Grammy. Indicado em seis categorias, ele se tornou o primeiro artista cantando em espanhol a disputar simultaneamente Álbum, Canção e Gravação do Ano. Seu disco “Debí Tirar Más Fotos” combina afirmação cultural de Porto Rico com comentários políticos que dialogam diretamente com o momento dos Estados Unidos. Uma vitória seria histórica, mas esbarra em um padrão recorrente da premiação. Artistas não anglófonos costumam ser reconhecidos apenas em categorias específicas, como música latina ou urbana.

A disputa por Álbum do Ano sintetiza essas tensões. Além de “GNX”, “Mayhem” e “Debí Tirar Más Fotos”, concorrem trabalhos de Sabrina Carpenter, Leon Thomas, Tyler, The Creator e até Justin Bieber. Enquanto alguns especialistas apostam na força narrativa de Gaga, outros veem em Kendrick Lamar o projeto mais orgânico e duradouro do ano. Já Bad Bunny surge como o nome que melhor representa o zeitgeist global, embora enfrente resistências históricas da Academia.

Em Gravação do Ano, categoria que premia não apenas o artista, mas toda a cadeia de produção, a canção “APT.”, de Rosé e Bruno Mars, aparece como uma das favoritas. O sucesso transversal da música, que atravessou gerações e mercados, pode render um feito inédito: Rosé se tornaria a primeira artista do k-pop a vencer um Grammy fora das categorias técnicas ou segmentadas. Ainda assim, “Abracadabra”, de Lady Gaga, é vista como uma escolha “segura” do ponto de vista da excelência técnica.

Já em Canção do Ano, que reconhece composição e letra, “Golden”, do filme “Guerreiras do K-Pop”, surge como forte candidata, impulsionada também por sua trajetória no circuito de premiações de cinema. A parceria “Luther”, de Kendrick Lamar e SZA, corre por fora, com o apelo adicional de homenagear Luther Vandross por meio de sample e referência direta.

Olivia Dean e Leon Thomas

A categoria de Artista Revelação também promete surpresa. Olivia Dean desponta como favorita, com seu soul pop elegante que remete a nomes como Adele e Amy Winehouse. Mas Leon Thomas, indicado também ao prêmio de Álbum do Ano, pode quebrar expectativas e repetir trajetórias de artistas que ascenderam rapidamente dentro da Academia.

O Brasil marca presença na categoria de Melhor Álbum de Música Global, com Caetano Veloso e Maria Bethânia. A indicação é histórica para Bethânia, enquanto Caetano já venceu duas vezes. O país, no entanto, vive um jejum de 25 anos sem vencer nessa categoria, o que torna a disputa ainda mais simbólica.

Além dos prêmios, o Grammy 2026 terá uma extensa lista de performances, reunindo veteranos como Lauryn Hill, Slash e Reba McEntire, nomes do pop atual como Sabrina Carpenter e Justin Bieber, e quase todos os indicados a Artista Revelação. O resultado é um retrato claro de uma indústria em transição, dividida entre tradição, diversidade global e a busca por novas formas de legitimação cultural.

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