
O conflito com o Irã ainda não tem data para terminar, mas Donald Trump já mira seu próximo alvo. Em declarações feitas a jornalistas no Salão Oval e a bordo do Air Force One, o presidente dos EUA foi explícito ao falar sobre Cuba: “Acredito que terei a honra de tomar Cuba. Tomar Cuba de alguma forma”. E foi além: “Posso fazer o que quiser com ela”. As falas foram dadas no exato momento em que Washington e Havana iniciavam conversações diplomáticas para tentar melhorar relações historicamente adversas. Circunstâncias que tornam o tom das declarações ainda mais reveladoras sobre a real natureza dessas negociações.
No domingo (15), a bordo do Air Force One, Trump sinalizou uma ordem de prioridades: “Estamos conversando com Cuba, mas vamos resolver o Irã antes de Cuba”. A frase, aparentemente de contenção, carrega uma ameaça implícita: Cuba é a próxima da fila. Após remover Nicolás Maduro do poder na Venezuela e se juntar a Israel em ataques ao Irã, o presidente americano já havia cogitado abertamente que a ilha caribenha seria o próximo capítulo de sua política externa intervencionista.
O que as declarações revelam vai além da retórica. Segundo o The New York Times, citando quatro fontes familiarizadas com as conversas bilaterais, a destituição do presidente cubano Miguel Díaz-Canel é um dos principais objetivos dos EUA nas negociações. Washington teria sinalizado aos negociadores cubanos que Díaz-Canel precisa sair, deixando os próximos passos a cargo dos próprios cubanos. Díaz-Canel respondeu afirmando esperar que as negociações ocorram “sob princípios de igualdade e respeito pela soberania e autodeterminação”. A Casa Branca, por sua vez, ainda não apresentou qualquer base legal para uma eventual intervenção.
Uma ilha no escuro
Enquanto Trump faz seus cálculos geopolíticos, Cuba afunda em sua pior crise energética em décadas. Na segunda-feira (16), a rede elétrica do país entrou em colapso total pela sexta vez em apenas um ano e meio. O Ministério de Energia e Minas confirmou a “desconexão total do Sistema Elétrico Nacional” e informou que as causas estão sendo investigadas. Para os 10 milhões de cubanos, isso significa dias sem energia. Em curso, um processo de restabelecimento lento que depende de fontes de partida simples, como painéis solares e pequenas hidrelétricas, para depois tentar religar as usinas termelétricas.
O problema central é que, desta vez, Cuba quase não tem combustível. Em janeiro, Trump interrompeu as exportações de petróleo venezuelano para a ilha após a queda de Maduro — um golpe direto no principal fornecedor de Cuba. Desde então, o governo cubano afirma não ter recebido nenhum carregamento de petróleo há três meses. Para agravar, Trump ameaça impor tarifas a qualquer país que venda petróleo a Cuba, pressionando outros fornecedores como México e Rússia. O resultado é uma economia que encolheu mais de 15% desde 2020 e que agora opera com racionamento severo de energia, paralisação de setores inteiros e escassez crescente de alimentos.
Protestos e a pressão nas ruas
A crise chegou às ruas. Na madrugada do último sábado (14), manifestantes atacaram a sede do Partido Comunista de Cuba, o único partido autorizado no país, em um evento raro e simbólico da crescente insatisfação popular. Os apagões prolongados e a falta de alimentos têm sido o estopim de protestos em Havana e em cidades como Morón. A agitação social cresce em um país onde a repressão política historicamente sufocou qualquer manifestação pública de descontentamento.
O que se desenha é uma arquitetura geopolítica perturbadora. Em menos de dois anos de mandato, Trump removeu um presidente estrangeiro por força militar, conduziu ataques junto a Israel contra o Irã e agora aplica estrangulamento econômico sobre Cuba enquanto declara abertamente sua intenção de “tomá-la”. Tudo isso sem que a Casa Branca apresente qualquer amparo legal para suas ações.
Vale lembrar que, desde a Crise dos Mísseis de 1962, os EUA se comprometeram a não invadir Cuba nem apoiar invasões ao país. Mais de uma dúzia de presidentes americanos, ao longo de décadas, mantiveram esse compromisso — mesmo os mais críticos ao regime comunista de Havana. Trump parece disposto a rasgar esse acordo histórico, em um momento em que a ilha já está de joelhos.
A pergunta que o mundo faz é simples: depois do Irã, o que Trump fará com Cuba e até onde o resto do mundo permitirá que ele vá?