Débora Bloch interpreta a vilã Odete Rotman na novela ds 21h da Globo | Foto: Divulgação

O debate sobre a taxação de grandes fortunas e dos chamados super-ricos deixou de ser uma discussão restrita a acadêmicos e militantes e passou a ocupar espaço central no Congresso Nacional e na agenda internacional. A proposta brasileira surge como resposta à profunda desigualdade no país e conecta-se a um movimento global por sistemas tributários mais justos e progressivos.

O Brasil figura entre os países mais desiguais do mundo, segundo o Índice de Gini, e ainda não regulamentou o Imposto sobre Grandes Fortunas, previsto na Constituição desde 1988. Enquanto bilionários concentram parte significativa da riqueza nacional, milhões de brasileiros enfrentam dificuldades para garantir direitos básicos. A injustiça tributária se expressa no peso desproporcional que recai sobre os mais pobres: os 10% de menor renda pagam, proporcionalmente, três vezes mais impostos que os 10% mais ricos, segundo a Oxfam, ONG dedica ao estudo e combate à pobreza e desigualdade.

A contemporaneidade da proposta está em sua conexão direta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, em especial a redução das desigualdades. No G20, na cúpula dos BRICS e em negociações da ONU, o Brasil tem defendido mecanismos de cooperação internacional para tributar milionários e combater fluxos ilícitos de capitais. Ao apresentar a reforma do Imposto de Renda com isenção para quem ganha até R$ 5 mil e cobrança progressiva dos mais ricos, o governo Lula aposta em um discurso democrático: quem pode mais deve contribuir mais, para que a carga tributária deixe de pesar sobre os ombros da maioria.

Criatividade para encampar um debate complexo

Se os números e projeções econômicas podem soar abstratos, iniciativas de comunicação têm buscado traduzir a essência do debate em linguagem acessível. Um exemplo veio do deputado federal  Guilherme Boulos (PSOL-SP), que usou cenas da novela “Vale Tudo” para ilustrar a disparidade tributária no país. Em vídeo publicado nas redes sociais, o parlamentar comparou a personagem Odete Roitman (Deborah Bloch), símbolo de riqueza e cinismo, com Jarbas (Leandro Firmino), trabalhador simples.

“Taxação de Odete Roitman já. IR zero para o Jarbas”, escreveu Boulos, em um recado direto e popular. A estratégia associa a novela de grande audiência à realidade do sistema tributário brasileiro, reforçando a narrativa de que o atual modelo favorece as elites enquanto penaliza os trabalhadores. A ideia não apenas dialoga com o momento de alta repercussão da trama da Globo, mas também contribui para conscientizar a sociedade sobre o que está em jogo no Congresso: a chance de transformar o sistema tributário em um instrumento de justiça social.

Resistência e disputa no Congresso

Apesar do caráter democrático e da mobilização social, a proposta enfrenta forte resistência política. Parte expressiva do Congresso é composta por empresários e fazendeiros que se beneficiam do modelo atual. No processo de tramitação, partidos de oposição e setores do Centrão tentam desidratar o projeto e alterar sua essência.

A movimentação mais recente foi a articulação para anular a medida provisória que taxa investimentos do agronegócio, imobiliários e apostas online, incorporando esses pontos à reforma do Imposto de Renda como forma de compensação e retirando a taxação sobre os super-ricos. Essa manobra atende a pressões de setores econômicos que resistem a renunciar a privilégios fiscais.

O relator da proposta, Arthur Lira (Progressistas-AL), porém, manteve em seu texto a cobrança de 10% sobre rendas acima de R$ 1,2 milhão por ano, progressiva a partir de R$ 600 mil anuais. Segundo os cálculos apresentados, a medida pode injetar R$ 84 bilhões nos cofres públicos entre 2026 e 2028, garantindo os recursos necessários para compensar a ampliação da faixa de isenção do IR.

Lira admite que há consenso sobre a necessidade de isentar os que ganham até R$ 5 mil, mas reconhece o impasse em torno da compensação. Das 53 emendas apresentadas, 39 buscavam retirar ou suavizar a taxação dos super-ricos. Ainda assim, o relator sinalizou que não pretende ceder. Para o governo, enfraquecer a proposta significaria não apenas abrir mão de receita, mas também frustrar uma das principais bandeiras do presidente Lula às vésperas das eleições de 2026.

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