Nadja Kouchi / Acervo TV Cultura

A deputada federal Erika Hilton apresentou, em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, um panorama abrangente de sua atuação política e dos desafios à frente da Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres da Câmara dos Deputados. Em uma conversa que transitou entre trajetória pessoal, embates institucionais e formulação de políticas públicas, Hilton defendeu uma agenda que combina enfrentamento direto à violência de gênero com estratégias pragmáticas para ampliar direitos no Brasil.

Primeira mulher trans a presidir o colegiado, a parlamentar afirmou que sua eleição desencadeou uma reação marcada por ataques transfóbicos e tentativas de deslegitimação. Segundo ela, o debate público foi “contaminado por discursos de ódio” que buscaram deslocar o foco das pautas estruturais da comissão, como o combate ao feminicídio e à violência sexual. Ainda assim, Hilton sustenta que sua atuação não se restringe a pautas identitárias, mas abrange temas estruturais como trabalho, desigualdade social e políticas urbanas.

No centro de sua agenda está o enfrentamento ao que classifica como “epidemia de violência” contra mulheres no país. Entre as propostas defendidas, está a tipificação da misoginia como crime, projeto que já avançou no Senado e agora tramita na Câmara. A deputada aponta que a iniciativa enfrenta resistência alimentada por desinformação e por interesses econômicos ligados à disseminação de conteúdo de ódio nas redes.

Nesse contexto, ganha destaque o projeto de desmonetização do ódio, que busca atacar a lógica financeira por trás da produção de conteúdos misóginos e violentos. A proposta prevê que plataformas digitais sejam responsabilizadas por retirar rapidamente conteúdos que promovam ataques contra mulheres, além de impedir que criadores lucrem com esse tipo de material. Para Hilton, a internet não pode permanecer como uma “terra sem regras”, onde a violência simbólica se converte em engajamento e receita.

A deputada também defende a regulamentação das chamadas Big Techs como medida essencial para conter a disseminação de desinformação e discursos extremistas. Segundo ela, há um “lobby poderoso” que dificulta avanços legislativos nessa área, ao mesmo tempo em que a normalização do ódio se consolida como estratégia política e eleitoral em determinados setores.

Outro eixo relevante da atuação de Hilton é a articulação em torno do fim da escala de trabalho 6×1. Embora não seja uma pauta exclusivamente de gênero, a parlamentar destaca seu impacto direto sobre as mulheres, especialmente no que diz respeito à conciliação entre trabalho, cuidado familiar e qualidade de vida. A proposta vem sendo estruturada com base em estudos técnicos e diálogo com o governo, numa tentativa de afastar críticas sobre sua viabilidade econômica.

No campo da saúde e da educação, a deputada defende políticas voltadas à dignidade menstrual, à saúde da mulher e à ampliação do debate sobre educação sexual nas escolas. Para Hilton, tratar o tema com base científica é fundamental para prevenir abusos, reduzir a gravidez precoce e combater a desinformação. Ela argumenta que a educação deve formar cidadãos críticos, capazes de reconhecer violações de direitos e atuar na construção de uma sociedade mais igualitária.

A perspectiva interseccional também orienta suas propostas. Hilton afirma que políticas públicas precisam considerar as especificidades de mulheres negras, indígenas, trabalhadoras rurais, periféricas e trans, reconhecendo que a violência e a desigualdade se manifestam de forma distinta entre esses grupos.

Apesar do tom firme em relação às pautas, a deputada reconhece a necessidade de construir alianças e adotar estratégias políticas pragmáticas. Segundo ela, avanços democráticos dependem tanto da mobilização social quanto da capacidade de negociação dentro das instituições. “É preciso garantir resultados concretos sem abrir mão da defesa das populações historicamente marginalizadas”, indicou.

Ao final da entrevista, Hilton reforçou a importância do Estado laico e da valorização da cultura e da educação como ferramentas centrais no enfrentamento ao conservadorismo extremista. Para a parlamentar, a disputa política contemporânea passa necessariamente pela construção de uma sociedade mais informada, crítica e menos suscetível à manipulação por discursos de ódio.

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