
A crise entre Estados Unidos e Espanha escalou nesta quarta-feira (4) após a troca pública de acusações entre a Casa Branca e o governo espanhol sobre eventual cooperação militar no contexto da ofensiva americana contra o Irã.
O impasse começou na terça-feira (3), quando Donald Trump ameaçou cortar relações comerciais com a Espanha depois que Madri proibiu o uso de bases militares em seu território para ataques contra Teerã. A tensão ganhou novo capítulo quando a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a Espanha teria concordado em cooperar com as Forças Armadas americanas.
“Sobre a Espanha, acho que eles ouviram a mensagem de Trump ontem de forma alta e clara. E entendo que nas últimas horas eles concordaram em cooperar com os militares dos EUA”, declarou Leavitt.
Vinte minutos depois, o ministro das Relações Exteriores espanhol, José Manuel Albares, negou “de forma categórica” a informação.
“Não tenho a mínima ideia do que a senhora Leavitt está dizendo”, afirmou Albares à rádio Cadena SER. “A posição do Governo da Espanha sobre a guerra no Oriente Médio, os bombardeios no Irã e o uso das nossas bases não mudou uma vírgula sequer.”
Ele reforçou que qualquer operação militar envolvendo bases em território espanhol precisa estar “dentro do marco da ONU” e dos acordos bilaterais existentes.
“Não seremos cúmplices”
Horas antes da tréplica americana, o primeiro-ministro Pedro Sánchez havia feito um pronunciamento nacional televisionado em tom contundente. Ele acusou Trump de “brincar de roleta russa com o destino de milhões de pessoas” ao ampliar a ofensiva militar contra o Irã.
“É assim que começam as grandes catástrofes da humanidade. Você não pode jogar roleta russa com o destino de milhões”, afirmou.
Sánchez também declarou que a posição da Espanha pode ser resumida em três palavras: “Não à guerra”.
“Não vamos ser cúmplices de algo que é ruim para o mundo nem contrário aos nossos valores e interesses simplesmente para evitar represálias de alguém”, disse, em referência às ameaças comerciais feitas por Trump.
O premiê espanhol ainda comparou o cenário atual às consequências da Guerra do Iraque, citando aumento do terrorismo e disparada nos preços da energia como efeitos colaterais de intervenções militares mal calculadas.
Bases militares no centro da disputa
O estopim da crise foi a decisão do governo espanhol de proibir o uso das bases americanas no sul do país para operações contra o Irã. Os Estados Unidos mantêm presença estratégica em território espanhol no âmbito da Otan, mas o uso operacional dessas instalações depende de acordos bilaterais.
Trump reagiu afirmando que poderia cortar completamente as relações comerciais com a Espanha. Em entrevista na Casa Branca, declarou:
“A Espanha tem sido terrível. Eu disse para cortar todas as relações com a Espanha. Podemos usar a base deles se quisermos. Podemos simplesmente entrar voando e usá-la.”
A fala elevou o tom diplomático e provocou reação imediata da União Europeia.
União Europeia entra no jogo
A Comissão Europeia declarou estar “pronta” para defender os interesses do bloco, sinalizando que qualquer medida comercial contra a Espanha teria repercussões continentais.
A Espanha integra o mercado comum europeu, e uma eventual ruptura comercial com Washington afetaria cadeias produtivas estratégicas, especialmente em setores como energia, defesa, infraestrutura e agroindústria.
O episódio ocorre em meio à volatilidade dos mercados internacionais causada pela guerra no Oriente Médio. O barril do Brent ultrapassou US$ 85, maior nível desde julho de 2024, após ameaças do Irã de fechar o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo global.
Disputa narrativa e tensão geopolítica
A sequência dos fatos – ameaça comercial, pronunciamento duro de Sánchez, anúncio de suposta cooperação militar e desmentido imediato de Madri – revela um embate também no campo da narrativa pública.
Enquanto a Casa Branca tenta demonstrar alinhamento entre aliados da Otan, o governo espanhol busca afirmar autonomia diplomática e compromisso com o direito internacional.
A crise expõe fissuras dentro do eixo transatlântico e mostra que a guerra contra o Irã já produz efeitos políticos que vão além do campo militar. O desfecho dependerá da capacidade de negociação entre Washington, Madri e Bruxelas nos próximos dias.