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Kuwait Petroleum Corporation/Divulgação via REUTERS

O secretário de Defesa dos Estados Unidos (EUA), Pete Hegseth, afirmou nesta terça-feira (31) que os próximos dias serão “decisivos” na guerra contra o Irã e disse que o conflito deve se intensificar caso Teerã não aceite um acordo. A declaração marcou o principal anúncio de Washington no dia, em meio à ampliação do conflito no Golfo e à pressão sobre rotas estratégicas de petróleo.

A fala de Hegseth ocorreu horas depois de um ataque com drone atingir o petroleiro kuwaitiano Al-Salmi próximo a Dubai. As autoridades locais informaram que o incêndio foi controlado, sem vazamento de óleo e sem feridos entre a tripulação. A embarcação, segundo dados citados pela Reuters, levava 1,2 milhão de barris de petróleo saudita e 800 mil barris de petróleo kuwaitiano com destino à China.

No mesmo dia, a Guarda Revolucionária do Irã ameaçou retaliar empresas americanas na região a partir de quarta-feira (1º), citando 18 grupos, entre eles Microsoft, Google, Apple, Intel, IBM, Tesla e Boeing. Na véspera, Donald Trump havia ameaçado destruir instalações energéticas iranianas caso o país não aceitasse um acordo de paz e não reabrisse o Estreito de Ormuz.

Golfo sob ataque

O ataque ao Al-Salmi se soma a uma sequência de ofensivas contra embarcações comerciais desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. A Reuters compilou ocorrências em praticamente toda a primeira quinzena de março, com petroleiros e cargueiros atingidos perto de Omã, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Iraque e no próprio Estreito de Ormuz. Entre os casos relatados estão navios registrados nas Ilhas Marshall, Gibraltar, Palau, Malta, Panamá e Bahamas.

Essa pressão sobre a navegação tem peso global porque o Estreito de Ormuz concentra normalmente cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo e gás natural liquefeito. A agência internacional informou que o bloqueio efetivo da passagem pelo Irã já elevou os preços internacionais: o Brent subiu 5,5% no dia e caminhava para ganho mensal recorde de 64%, enquanto o preço médio da gasolina nos Estados Unidos superou US$ 4 por galão pela primeira vez em mais de três anos.

O anúncio dos EUA

Ao falar em Washington, Hegseth disse que Donald Trump ainda está disposto a fechar um acordo e que as conversas continuam, mas afirmou que os EUA estão prontos para manter a guerra se o Irã não ceder. “Temos cada vez mais opções, e eles têm menos”, disse o secretário, acrescentando que “os próximos dias serão decisivos”. O chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, afirmou que os EUA seguem degradando capacidades iranianas e que mais de 150 embarcações navais do Irã já foram destruídas.

A Reuters também informou que milhares de soldados da 82ª Divisão Aerotransportada dos EUA começaram a chegar ao Oriente Médio, reforço que amplia as opções militares da Casa Branca e pode incluir, segundo a agência, até a possibilidade de uma ofensiva terrestre. Ao mesmo tempo, China e Paquistão defenderam cessar-fogo imediato e abertura de negociações.

Europa reage

A escalada militar abriu fricções entre Washington e aliados europeus. França, Itália e Espanha negaram apoio a algumas operações militares dos EUA e de Israel relacionadas ao conflito com o Irã, segundo fontes ouvidas pela Reuters. Paris recusou o uso de seu espaço aéreo para transporte de armamentos; Roma negou autorização para que aviões militares americanos pousassem na base de Sigonella, na Sicília, antes de seguir ao Oriente Médio.

Donald Trump criticou publicamente os aliados da Otan e acusou países europeus de não ajudarem no esforço de guerra. A reação europeia expôs divergências sobre o custo político, jurídico e militar do conflito. A Espanha afirmou que sua posição busca respeitar o direito internacional, enquanto a França disse que a recusa ao sobrevoo está em linha com sua política desde o início da guerra.

Energia, comércio e risco político

Além do impacto militar, a crise já avança sobre energia e comércio internacional. A União Europeia passou a discutir a retomada de mecanismos de crise usados em 2022, quando a Rússia reduziu o fornecimento de gás, para lidar com a nova disrupção no mercado energético. A deterioração do quadro também tem efeito político nos Estados Unidos, onde a alta dos combustíveis pressiona o governo e o Partido Republicano antes das eleições de meio de mandato de novembro.

O quadro desta terça-feira (31) reúne, ao mesmo tempo, três movimentos: o ataque a mais um grande petroleiro, a sinalização americana de que o conflito entra em uma fase decisiva e a resistência de aliados europeus a parte das operações em curso. No centro de tudo está o Estreito de Ormuz, rota vital para o petróleo global e hoje convertido em um dos principais pontos de pressão da guerra.

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