
O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou nesta quinta-feira (19) a ex-assessora parlamentar Raimunda Veras Magalhães, que atuou no gabinete do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), sob acusação de integrar um esquema de lavagem de dinheiro ligado à milícia comandada por Adriano da Nóbrega.
Segundo a denúncia, Raimunda fazia parte de uma rede estruturada para “receber, movimentar e ocultar valores” oriundos do jogo do bicho, atividade ilegal que, de acordo com as investigações, era controlada por Adriano em áreas da zona sul do Rio, especialmente em Copacabana, em associação com o bicheiro Bernardo Bello.
As apurações indicam que o grupo utilizava empresas de fachada para dar aparência legal aos recursos ilícitos. Ao menos quatro estabelecimentos foram identificados como parte da engrenagem financeira, incluindo bar, restaurante, depósito de bebidas e um quiosque em shopping na zona norte. Este último, segundo o Ministério Público, registrou movimentação de cerca de R$ 2 milhões em apenas seis meses, valor incompatível com a atividade declarada.
No núcleo da denúncia, Raimunda aparece associada a uma pizzaria que teria recebido depósitos de pessoas e empresas ligadas à estrutura de lavagem. A Promotoria aponta que a movimentação financeira do estabelecimento entre 2014 e 2019 foi considerada atípica, com entrada de recursos de origem suspeita, incluindo transferências de empresas investigadas no mesmo esquema.
Vínculo com Adriano da Nóbrega
Adriano da Nóbrega, morto em 2020 durante operação policial na Bahia, é apontado como um dos principais líderes de milícia do Rio de Janeiro, com atuação que incluía exploração do jogo do bicho, agiotagem, segurança ilegal e controle territorial. Mesmo após sua morte, segundo o MP-RJ, a organização seguiu ativa, com estrutura mais sofisticada e divisão de funções entre operadores financeiros, intermediários e gestores de patrimônio.
Uma das linhas centrais da investigação é a continuidade das atividades criminosas após a morte de Adriano. A denúncia afirma que a viúva, Julia Lotufo, assumiu a gestão financeira do grupo, controlando ativos e mantendo a operação em funcionamento. Ela também foi denunciada no caso.
O Ministério Público apresentou três denúncias distintas relacionadas ao grupo: uma sobre a exploração do jogo do bicho, outra sobre a atuação de grupos de extermínio e uma terceira voltada à ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro.
Relação com gabinete de Flávio Bolsonaro
A presença de Raimunda Veras Magalhães no gabinete de Flávio Bolsonaro entre 2016 e 2018 recoloca no debate público a relação entre o entorno político do senador e personagens ligados à milícia.
Ela já havia sido investigada no caso das “rachadinhas”, que apurava a devolução de parte dos salários de assessores na Alerj. A ação acabou arquivada em 2021 após decisões do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal que anularam provas obtidas sem autorização judicial.
Apesar do arquivamento, o novo desdobramento reativa conexões anteriores. Adriano da Nóbrega, além de apontado como líder miliciano, manteve relação com o gabinete de Flávio Bolsonaro, onde familiares seus foram empregados. O próprio Adriano chegou a ser homenageado com uma moção de louvor na Alerj, quando Flávio ainda era deputado estadual.
O senador não comentou o caso mais recente, alegando desconhecimento da denúncia. A defesa de Raimunda informou que ainda não teve acesso aos autos.
Outros envolvidos e desdobramentos
Além de Raimunda, o Ministério Público denunciou o deputado federal Juninho do Pneu (União Brasil-RJ), acusado de adquirir bens ligados a Adriano da Nóbrega após sua morte, avaliados em aproximadamente R$ 3,5 milhões.
Segundo a Promotoria, a transação teria ocorrido com conhecimento da origem ilícita dos recursos. O deputado nega as acusações e afirma que o imóvel citado foi adquirido por seu pai. Também defende que eventual investigação deve ser conduzida pela Procuradoria-Geral da República, em razão de seu foro privilegiado.
A denúncia inclui ainda outros integrantes da rede, apontados como operadores financeiros e responsáveis pela movimentação de valores e pela gestão de empresas utilizadas na lavagem de dinheiro.
Modelo de operação
As investigações descrevem um modelo clássico de lavagem, com pulverização de recursos em negócios de pequeno e médio porte, uso de empresas de fachada e circulação de dinheiro em contas com movimentação incompatível com o faturamento declarado.
O objetivo, segundo o MP-RJ, era dificultar o rastreamento e inserir os valores no sistema financeiro formal, permitindo sua reutilização em outras atividades e na aquisição de patrimônio.
Impacto político
A nova denúncia surge em um momento de reorganização do campo político da direita, com Flávio Bolsonaro sendo projetado como pré-candidato à Presidência da República em 2026. Embora não haja acusação direta contra o senador neste caso, o envolvimento de uma ex-assessora em um esquema ligado à milícia amplia a pressão sobre seu entorno político.
O caso também reforça a permanência de investigações sobre a estrutura financeira de grupos milicianos no Rio de Janeiro e suas conexões com agentes públicos e redes políticas, tema que volta ao centro do debate nacional em um contexto pré-eleitoral.
A evolução das apurações deve ampliar o alcance do caso nas próximas semanas, com possibilidade de novos desdobramentos tanto na esfera criminal quanto no campo político.