Bolsonaro
Alan Santos / PR

Declarações do ex-embaixador norte-americano John Feeley, divulgadas no domingo (28) a partir de uma entrevista à BBC News Brasil, indicam que o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump se afastou politicamente de Jair Bolsonaro após a derrota eleitoral de 2022 e, sobretudo, depois da condenação e prisão do ex-presidente brasileiro. Segundo Feeley, Trump passou a enxergar Bolsonaro como um “perdedor”, categoria que o republicano não tolera em suas relações políticas.

As declarações foram feitas em entrevista concedida no fim de dezembro de 2025, no contexto da análise sobre o recuo do governo dos Estados Unidos em medidas adotadas contra o Brasil e autoridades do Judiciário brasileiro. Para Feeley, a mudança de postura de Washington não decorre de uma vitória diplomática do governo brasileiro, mas de fatores ligados ao comportamento pessoal e imprevisível de Trump.

Derrota, prisão e descarte político

Na avaliação do ex-embaixador, a relação entre Trump e Bolsonaro nunca foi estruturada como uma aliança estratégica duradoura. Ela se sustentou, enquanto ambos estavam no poder, em afinidades retóricas e na exploração de pautas conservadoras junto às respectivas bases eleitorais. Esse vínculo, porém, teria se rompido no momento em que Bolsonaro deixou de representar força política.

Segundo Feeley, assim que Bolsonaro perdeu a eleição e passou a enfrentar processos judiciais, Trump deixou de vê-lo como referência. Para o diplomata, o ex-presidente norte-americano opera a partir de uma lógica centrada em vitória, poder e utilidade imediata. Líderes derrotados, nesse raciocínio, tornam-se irrelevantes.

A leitura ajuda a explicar o silêncio de Trump diante da prisão de Bolsonaro, contrastando com o discurso de proximidade que marcou o período em que ambos ocupavam a Presidência.

Sanções, tarifas e o papel do lobby

Feeley também relaciona esse comportamento à sequência de decisões tomadas por Washington em 2025. Em julho, os Estados Unidos impuseram tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros e incluíram o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua esposa na lista de sancionados pela Lei Magnitsky, em meio a pressões ligadas ao julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Posteriormente, em 20 de novembro, Trump assinou decreto suspendendo as tarifas e, semanas depois, retirou Moraes e a esposa da lista de sanções. Para o ex-embaixador, a reação inicial do governo norte-americano esteve menos ligada a uma estratégia institucional e mais ao lobby feito em Washington por Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro.

Segundo Feeley, Trump é altamente suscetível a pressões de lobistas e assessores externos, especialmente quando esses conseguem acesso direto a figuras próximas ao governo. O recuo posterior, na avaliação do diplomata, não refletiu mudança de posição estratégica, mas a natureza errática e personalista do ex-presidente norte-americano.

Relação Brasil–EUA além dos líderes

Na entrevista, Feeley afirma que a relação entre Brasil e Estados Unidos permanece estratégica independentemente de quem ocupa o poder. Ele avalia que análises centradas exclusivamente na relação pessoal entre líderes tendem a superestimar o papel de Trump e subestimar o funcionamento institucional dos dois países.

Para o diplomata, o Brasil atravessou, nos últimos anos, um teste democrático semelhante ao vivido pelos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021. Nesse contexto, o fortalecimento das instituições brasileiras e a atuação do Judiciário teriam contribuído para reduzir o espaço de manobra de Trump em sua tentativa de interferência indireta no caso Bolsonaro.

A avaliação de John Feeley reforça a leitura de que o afastamento de Trump não foi fruto de cálculo diplomático em favor do Brasil, mas consequência direta de sua aversão a líderes derrotados e de sua tendência a abandonar aliados que deixam de representar capital político.

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