
O fim da escala de trabalho 6×1 emerge como uma das principais bandeiras do governo federal para 2026, com expectativa de intensos debates no Congresso Nacional e na sociedade. A mudança, que pode representar a maior transformação na jornada de trabalho brasileira das últimas décadas, mobiliza tanto apoiadores quanto críticos em um ano marcado pela disputa pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, tem liderado as articulações governamentais em favor da proposta. Durante entrevista ao programa “Bom Dia, Ministro” na semana passada, ele atualizou o andamento das negociações. “Está avançando muito bem o diálogo com os setores do Congresso. Estive com o presidente da Câmara, Hugo Motta, na semana passada, junto com o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, e fizemos uma conversa sobre o fim da 6×1. Há um avanço na discussão para que a gente vote ainda neste semestre o fim da escala e consiga dar essa resposta aos trabalhadores”, afirmou.
Boulos deixou clara a posição do governo: “A proposta que estamos construindo, defendida pelo presidente Lula e pelo nosso governo, é de, no máximo, de 5×2, 40 horas semanais. Hoje o máximo é 44 horas semanais e queremos reduzir para 40, sem redução de salário. Esta é a proposta que está sendo desenhada para todos os setores da economia no Brasil, por uma questão de dignidade dos trabalhadores.”
O ministro também rebateu críticas sobre possível queda de produtividade. “A Islândia, em 2023, reduziu para 35 horas, com jornada 4×3 e a economia cresceu 5% e a produtividade do trabalho aumentou 1,5%. Nos EUA, houve uma redução média de 35 minutos de trabalho por dia nos últimos 3 anos e isso aconteceu pela própria dinâmica do mercado e aumentou em média 2% da produtividade”, exemplificou Boulos, acrescentando: “Quando o trabalhador ou trabalhadora está mais descansado, o resultado é que ele vai trabalhar melhor. Se você tem um tempo de descanso maior, vai trabalhar melhor.”

No Congresso, o tema tramita por meio de duas principais propostas. No Senado, a PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), prevê redução gradual da jornada para 36 horas semanais ao longo de cinco anos. Já na Câmara dos Deputados, a PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), propõe jornada de 30 horas semanais distribuídas em quatro dias de trabalho, mantendo o salário integral.
A proposta de Hilton já reúne mais de duzentas assinaturas na Câmara, número considerado expressivo. A deputada defende que a escala 6×1 é “desumana” e impede o direito ao lazer, convívio familiar e saúde. Paulo Paim argumenta que a redução gradual pode aumentar a produtividade e gerar novos empregos.
Há, ainda, outras duas propostas que não iniciaram tramitação. A PEC 4/2025, iniciativa do senador Cleitinho (Republicanos-MG), reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas semanais, organizada em até cinco dias por semana, com descanso remunerado, preferencialmente nos fins de semana. A proposta ainda aguarda despacho da presidência do Senado para dar início à tramitação. Já a PEC 221/2019, propõe reduzir a jornada de trabalho para 36 horas semanais em 10 anos. A proposta de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) está parada na CCJ da Câmara à espera da designação de um relator.
A base governista no Parlamento apoia a medida como demanda legítima da sociedade moderna. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, reforçou que o fim da escala é prioridade do governo. “Depois de corrigir o salário mínimo acima da inflação, gerar empregos e ampliar a isenção do imposto de renda, chegou a hora de cuidar da qualidade de vida do povo brasileiro”, declarou, destacando que a medida beneficia especialmente mulheres que acumulam trabalho formal e tarefas domésticas.
Por outro lado, a oposição apresenta resistência significativa. O deputado Luiz Gastão (PSD-CE), relator da proposta de Hilton na Câmara, apresentou texto alternativo que mantém a possibilidade de trabalho em seis dias, mas reduz o limite semanal de 44 para 40 horas. Parlamentares do PL, Novo e Centrão argumentam que a medida é inviável economicamente para pequenas empresas e pode causar inflação ou aumento da informalidade. Pesquisas indicam que cerca de 92% da oposição se opõe à proposta, defendendo que qualquer redução deve ocorrer via negociação coletiva após ganhos reais de produtividade.
Governo traça estratégia
O governo estuda enviar projeto próprio para unificar as propostas existentes, aumentando as chances de aprovação. Gleisi Hoffmann confirmou que o Executivo analisa essa possibilidade como forma de acelerar o processo legislativo. A estratégia visa usar o texto como vitrine eleitoral na campanha presidencial de Lula.
Atualmente, no Senado, a PEC 148/2025 foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça em votação relâmpago que durou menos de dois minutos, pegando o empresariado de surpresa. A proposta aguarda votação no Plenário. Na Câmara, o texto de Erika Hilton ainda enfrenta resistência em comissões especiais antes de chegar ao plenário.
Com a retomada dos trabalhos do Congresso nesta segunda (2), o fim da escala 6×1 deve dividir espaço com outras pautas prioritárias, como regulamentação do trabalho por aplicativos, PEC da Segurança Pública, projeto antifacção e acordos internacionais como o tratado Mercosul-União Europeia.
Reação empresarial e impacto nas PMEs

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reagiu com veemência à proposta. “Ela é inoportuna e eleitoreira”, afirmou recentemente à CNN o presidente da CNI, Ricardo Alban, surpreso com a votação na CCJ do Senado. “Como podemos falar de reduzir agora a carga horária de trabalho quando o Brasil está vivendo uma situação de pleno emprego e tem déficit de mão de obra?”, questionou.
Alban enfatizou não ser contra o fim da escala 6×1, mas que ela já não é praxe entre empresas brasileiras. Segundo ele, a maioria dos setores adota a escala 5×2 ou 5,5×1,5. “O que questionamos é a pertinência econômica e social de colocar esse assunto agora na pauta. A razão é eleitoreira”, avaliou.
Para pequenas e médias empresas, o impacto pode ser significativo. Setores como comércio (49% usam escala 6×1), bares e restaurantes (16%), saúde (8%) e serviços administrativos seriam os mais afetados, segundo dados da VR. O principal desafio seria o aumento de custos, forçando empresas a contratar mais pessoas ou ampliar pagamento de horas extras.
O governo mantém expectativa de aprovação ainda no primeiro semestre, buscando transformar a medida em trunfo eleitoral. Boulos garantiu que há respaldo social suficiente, assim como ocorreu com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. A aprovação, contudo, depende de intensa articulação política com o presidente da Câmara e líderes partidários.
O tema promete mobilizar trabalhadores e empresários, definindo parte importante do debate político de 2026 entre qualidade de vida, dignidade trabalhista e viabilidade econômica em ano eleitoral crucial.