
A MTV saiu definitivamente do ar na TV brasileira em 31 de dezembro de 2025. A decisão encerra um capítulo central da cultura pop no país. Também confirma uma transformação estrutural do mercado audiovisual. O desligamento faz parte da estratégia da Paramount Skydance de encerrar todos os seus canais lineares no Brasil. Estão no pacote Nickelodeon, Nick Jr., Comedy Central, Paramount Network, MTV Live e a própria MTV.
A justificativa é objetiva. Queda contínua de audiência. Redução de receita publicitária. Encolhimento acelerado da base da TV paga. Desde 2016, milhões de lares abandonaram o cabo. O streaming se tornou dominante. O custo-benefício passou a ser questionado. O interesse pelo modelo linear diminuiu e o movimento da Paramount não é isolado. É sintomático.
No exterior, o processo segue lógica semelhante. No fim de 2025, a MTV encerrou canais dedicados exclusivamente à exibição de videoclipes 24 horas. Saíram do ar MTV Music, MTV 80s, MTV 90s, Club MTV e MTV Live. O corte atingiu Estados Unidos, Irlanda, França, Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria e Austrália. O último vídeo exibido no canal americano foi emblemático. “Video Killed the Radio Star”, do The Buggles. O mesmo clipe exibido na estreia da MTV, em 1981.
Nem a MTV nem a Paramount detalharam oficialmente os motivos do encerramento. Mas o contexto é claro. Corte de custos; reestruturação corporativa; e mudança de foco para o modelo D2C, o direct-to-consumer. A prioridade agora é o Paramount+, no streaming por assinatura, e a Pluto TV, com programação linear gratuita via internet. No Brasil, o corte foi total. Em outros mercados, alguns canais musicais sobrevivem, ao menos por enquanto.
A MTV original, em alguns países, seguirá no ar. Mas não como era. O conteúdo musical deixou de ser central há mais de uma década. Desde 2010, quando a Viacom retirou o subtítulo Music Television, a emissora passou a priorizar realities, comédias e programas de variedades. A música foi deslocada para canais acessórios. Depois, para o digital. Por fim, para fora do grupo.
O fim da MTV musical não surpreende. A emissora perdeu sua identidade antes de perder seu sinal. Nos anos 1980 e 1990, foi catalisadora da era do videoclipe. Mudou a forma de consumir música. Estimulou artistas a pensar imagem, narrativa e estética. Michael Jackson levou isso ao limite. “Thriller” virou referência cinematográfica. A MTV amplificou esse movimento.
Também foi um laboratório de linguagem. Revelou VJs. Criou formatos. Lançou animações como Æon Flux e Beavis and Butt-Head. Promoveu eventos globais, como o VMA. Chegou ao Brasil em 1990. Tornou-se parte da formação cultural de uma geração.
O problema foi a incapacidade de adaptação estratégica. A MTV se considerou insubstituível. Não percebeu a virada digital. A internet fragmentou a atenção e plataformas como YouTube, torrents e streaming desmontaram a lógica da programação linear. O público passou a escolher quando e como consumir conteúdo. A MTV tentou competir abrindo mão da música. Perdeu o diferencial. Tornou-se genérica.
O contraste com o rádio é revelador. O rádio entendeu seu papel social e resistiu. Se adaptou e continua relevante. A MTV, não. Apostou que o passado garantiria o futuro. Não garantiu.
A decisão da Paramount reflete um mercado em transição. A programação linear ainda existe. Mas exige clareza de identidade. Exige entendimento do público. Sem isso, o destino é previsível. A MTV sai de cena como símbolo de uma era. E como alerta sobre o custo de ignorar mudanças de hábito.