
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deu início à retirada definitiva dos orelhões, os telefones públicos que por décadas fizeram parte da paisagem urbana brasileira. A medida marca o fim de um capítulo importante na história das telecomunicações do país, influenciada pelas transformações tecnológicas e pelo crescimento exponencial da telefonia móvel e da internet.
Os orelhões, oficialmente chamados de Telefone de Uso Público (TUP), estiveram presentes nas calçadas, praças, rodoviárias e pontos de grande circulação em cidades de norte a sul do país desde o início da década de 1970. Com a popularização dos celulares e das chamadas pela internet, o uso desses aparelhos foi decaindo nas últimas décadas.
Com o término das concessões do serviço de telefonia fixa pelas empresas responsáveis, as operadoras deixaram de ser obrigadas a manter os orelhões nas vias públicas, abrindo caminho para a remoção gradual de milhares de aparelhos ao longo de 2026. A estimativa divulgada em reportagens é que cerca de 38 mil orelhões sejam retirados, principalmente de áreas centrais, corredores comerciais e avenidas de grande fluxo.
Apesar disso, a Anatel considera a possibilidade de manter alguns telefones públicos em localidades onde ainda há necessidade real de acesso à comunicação, como regiões com cobertura móvel limitada ou comunidades mais isoladas.
Memória e utilidade
Durante décadas, os orelhões representaram muito mais do que aparelhos de comunicação. Antes da era digital, eram uma forma acessível de telefonar e, muitas vezes, o único meio de contato rápido para pessoas sem linha fixa residencial. Em bairros onde o telefone em casa era raro, o orelhão virou ponto de referência e parte do cotidiano urbano, associado a emergências, recados e encontros.
Esse papel também se consolidou no imaginário popular. O orelhão aparece em narrativas e cenas urbanas como símbolo de um tempo em que a comunicação era física, pública e compartilhada. Sua retirada, por isso, tem um peso que vai além da prestação do serviço: é o desaparecimento de um objeto familiar da paisagem brasileira.
Quem criou o orelhão
O design icônico do orelhão brasileiro foi criado pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, pioneira no design urbano e industrial no Brasil. Nascida em Xangai e naturalizada brasileira, ela se formou em arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.
No período em que chefiava o departamento de projetos da antiga Companhia Telefônica Brasileira (CTB), recebeu o desafio de desenvolver uma solução para proteger telefones públicos do ruído, das intempéries e da exposição nas ruas. O resultado foi a estrutura em fibra de vidro em formato de “ovo”, pensada para melhorar a acústica e reduzir interferências sonoras, especialmente em áreas de grande movimento.
O modelo ficou conhecido internamente como Chu II, em referência à criadora, mas o nome popular que se consolidou foi orelhão, apelido que traduzia a forma do equipamento e rapidamente entrou no vocabulário urbano.
A instalação do orelhão começou no início dos anos 1970, com expansão acelerada para diferentes cidades, acompanhando a necessidade de universalizar o acesso às comunicações em um país onde o telefone doméstico ainda era restrito.
A tecnologia que mudou tudo
Quando os orelhões surgiram, a telefonia móvel não existia e a comunicação à distância dependia de poucos recursos disponíveis para a população. Ao longo das décadas, a popularização do celular, da internet e de serviços de mensagem transformou o hábito de comunicação e reduziu o uso dos telefones públicos. Com o avanço tecnológico, a manutenção dos aparelhos passou a ser vista como pouco eficiente, especialmente em regiões com ampla cobertura de redes móveis.
Esse processo se conectou também a mudanças regulatórias: obrigações históricas de universalização foram sendo revistas para refletir a nova realidade de acesso digital.