
A Justiça da França condenou dez pessoas envolvidas em uma campanha de assédio online contra a primeira-dama Brigitte Macron. A decisão foi anunciada nesta segunda-feira (5) e considera que os réus participaram de uma ofensiva digital organizada, marcada por insultos reiterados, teorias conspiratórias e alegações falsas sobre a vida pessoal da esposa do presidente Emmanuel Macron.
Segundo o tribunal, os ataques configuraram assédio continuado e extrapolaram os limites da crítica política e da liberdade de expressão. As penas incluem prisão com suspensão condicional, multas financeiras e medidas educativas voltadas ao combate ao cyberbullying.
Alegações falsas e teorias conspiratórias
O núcleo da campanha foi a disseminação de uma alegação falsa de que Brigitte Macron seria uma mulher transgênero e teria “nascido homem”. Para sustentar essa narrativa, os envolvidos passaram a divulgar o nome “Jean-Michel Trogneux” como se fosse uma identidade anterior da primeira-dama. Na realidade, trata-se do irmão mais velho de Brigitte Macron, cujo nome foi deliberadamente distorcido para alimentar a teoria conspiratória.
Além disso, os ataques incluíram mensagens de cunho misógino e sexualizado, questionamentos sobre a identidade da primeira-dama e conteúdos que exploravam de forma ofensiva a diferença de idade entre ela e o presidente francês. Em alguns casos, as publicações avançaram para acusações morais e insinuações criminais sem qualquer base factual.
Como os rumores se tornaram virais
A investigação apontou que os rumores começaram a circular de forma marginal anos antes, mas ganharam escala significativa a partir de 2021, quando passaram a ser impulsionados por redes conspiratórias e canais alternativos de informação. A viralização ocorreu sobretudo em redes sociais e plataformas de vídeo, por meio de mensagens curtas, transmissões ao vivo e vídeos editados que repetiam a mesma narrativa falsa.
O padrão identificado seguiu a lógica típica da desinformação digital: poucos perfis lançavam o conteúdo inicial, que era rapidamente amplificado por outros usuários, criando a aparência de dúvida legítima. A repetição sistemática, mesmo após desmentidos públicos, foi considerada decisiva para a caracterização do crime.
Estratégia de amplificação e coordenação
O tribunal destacou que parte dos condenados produzia conteúdos originais, enquanto outros atuavam na difusão coordenada, compartilhando e reforçando as mesmas acusações em sequência. Essa estratégia de amplificação criou um ambiente de perseguição constante, no qual a primeira-dama passou a ser alvo recorrente de ataques.
Magistrados rejeitaram o argumento de que se tratava de simples opinião ou sátira, afirmando que a persistência da narrativa falsa, associada à intenção de humilhação pública, caracterizou assédio online agravado.
Perfil dos condenados e penas
Os dez condenados incluem homens e mulheres de diferentes regiões da França, em sua maioria com idades entre 40 e 60 anos. As penas variam conforme o grau de envolvimento, mas incluem penas de prisão com suspensão, multas e a obrigação de participar de programas educativos sobre violência digital e uso responsável das redes sociais.
Em ao menos um caso, a condenação foi mais severa devido à reincidência e à ausência do réu durante o julgamento.
Impacto pessoal e entendimento da Justiça
Durante o processo, familiares relataram o impacto psicológico da campanha sobre Brigitte Macron e sobre o círculo familiar, com efeitos diretos sobre a vida privada e a rotina cotidiana. A primeira-dama optou por não comparecer às audiências finais, sendo representada por seus advogados.
Na sentença, o tribunal afirmou que a liberdade de expressão não protege campanhas organizadas de difamação, perseguição pessoal ou disseminação consciente de desinformação, especialmente quando direcionadas a mulheres em posições públicas.
Precedente no combate à violência digital
A decisão é considerada um precedente relevante no enfrentamento à violência digital na França. O caso reforça o entendimento de que campanhas de ódio organizadas no ambiente online podem resultar em responsabilização penal, mesmo quando apresentadas como questionamento ou opinião política.
O julgamento ocorre em meio a um debate mais amplo na França e na Europa sobre misoginia online, teorias conspiratórias e os limites do discurso público nas redes sociais, especialmente quando o alvo são figuras institucionais e quando há impacto direto sobre a vida privada.